28.2.23

Não abandonar a Cruz

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Este texto, que continua o da semana passada no "Jornal de Notícias" - e que ainda terá um terceiro -, começa por recordar o fim do ministério petrino de Bento XVI a 28 de Fevereiro de 2013. É o momento inolvidável para nós, católicos, e para a humanidade se ela ainda fosse "humanidade". Não abandonou a Cruz. Nunca. E assim deverá ser por todos os séculos e séculos. 

22.2.23

Quarenta dias

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"Este regresso a Deus é possível? Sim, porque há uma força que não habita no nosso coração, mas emana do próprio coração de Deus. É a força da sua misericórdia. Continua o profeta: «Convertei-vos ao Senhor, vosso Deus, porque Ele é clemente e compassivo, paciente e rico em misericórdia» (v. 13). A conversão ao Senhor é possível como «graça», já que é obra de Deus e fruto da fé que depomos na sua misericórdia. Esta conversão a Deus só se torna realidade concreta na nossa vida, quando a graça do Senhor penetra no nosso íntimo e o abala, dando-nos a força para «rasgar o coração». O mesmo profeta faz ressoar, da parte de Deus, estas palavras: «Rasgai os vossos corações e não as vossas vestes» (v. 13). Com efeito, também nos nossos dias, muitos estão prontos a «rasgarem as vestes» diante de escândalos e injustiças – naturalmente cometidos por outros – mas poucos parecem dispostos a actuar sobre o seu «coração», a sua consciência e as próprias intenções, deixando que o Senhor transforme, renove e converta (...) A frase de São Paulo é muito forte: «Deus o fez pecado por nós». Jesus, o inocente, o Santo, «Aquele que não havia conhecido o pecado» (2 Cor 5, 21), carrega o peso do pecado partilhando com a humanidade o seu resultado: a morte, e morte de cruz. A reconciliação que nos é oferecida teve um preço altíssimo: a cruz erguida no Gólgota, na qual esteve pendurado o Filho de Deus feito homem. Nesta imersão de Deus no sofrimento humano e no abismo do mal, está a raiz da nossa justificação. O «converter-se a Deus de todo o coração» no nosso caminho quaresmal passa através da Cruz, do seguir Cristo pela estrada que conduz ao Calvário, ao dom total de si mesmo. É um caminho onde devemos aprender dia a dia a sair cada vez mais do nosso egoísmo e mesquinhez para dar espaço a Deus que abre e transforma o coração. E São Paulo lembra que o anúncio da Cruz ressoa para nós mediante a pregação da Palavra, da qual o próprio Apóstolo é embaixador; trata-se de um apelo que nos é dirigido para fazermos com que este caminho quaresmal se caracterize por uma escuta mais atenta e assídua da Palavra de Deus, luz que ilumina os nossos passos."

https://www.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/homilies/2013/documents/hf_ben-xvi_hom_20130213_ceneri.html

(Da derradeira homilia de Bento XIV, no Vaticano, na Quarta-feira de Cinzas de 2013)

 

21.2.23

“Avanti con fiducia!”

 


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O grupo Meta distraíu-se ontem e permitiu-me mudar a "capa" do meu "perfil" @João S. Gonçalves onde coloquei um sorridente Santo Padre Emérito Bento XVI. 

Já no outro, @João Gonçalves, nem isso deixou. Mas o que me importa é o testemunho que lá ia deixar e que fica aqui.


«Il 28 febbraio 2013...


«Nel momento in cui stava lasciando il Palazzo Apostolico per non farvi più ritorno [...] appena vidi il Santo Padre Benedetto XVI uscire dall’ascensore, comprendendo la gravità di quel momento… scoppiai a piangere. E spontaneamente mi vennero fuori dal cuore queste parole: 'Padre Santo, è un momento di tristezza'. Il Papa Benedetto XVI mi guardò quasi meravigliato, poi con la mano delicatamente mi toccò una guancia come se volesse asciugare una lacrima e sommessamente mi sussurrò:


'No, nessuna tristezza! Solo Gesù è indispensabile e Gesù continua a tenere il timone della barca della Sua Chiesa! Avanti… con fiducia!'.»


(Card. Angelo Comastri - do Prefácio do livro de Bento XVI "100 Homilias")


Fotografia: da última celebração do Papa Bento XVI aquando da Quarta-feira de Cinzas, 13.2 2013


 

20.2.23

Portugal e a Igreja da fé (1)

O primeiro de dois ou três artigos sobre Portugal contemporâneo e a Igreja, antes, durante e depois do "relatório Strecht". 


 


https://www.jn.pt/opiniao/joao-goncalves/amp/portugal-e-a-igreja-da-fe-1-15870367.html

14.2.23

Primeiras pessoas

 


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Nunca cheguei a conhecer o Manuel Rocha a não ser através de algumas mensagens privadas trocadas e no Facebook, onde agora estou um mês censurado. Porquê? Ironias do destino. Uma captura de ecrã de uma imagem do trailer oficial da série "O crime do padre Amaro" em que ambos, padre e Amélia, estão nus. E no grupo Meta toda a nudez será castigada, menos a dos carroceiros que exibem imagens de seios generosos, ou outras coisas generosas, estilo calendário de velho camionista TIR. Sucede que o Manuel Rocha foi, na década de noventa do século passado, director de informação da RTP onde, em 2023, tal série é apresentada. Dirigiu igualmente o centro de produção do Porto da televisão pública e fundou a RTP Memória. Lançou muita gente, uns melhores que outros, como em tudo. Foi bonito escutar o actual director da Memória e o José Alberto de Carvalho, ao longe, por video. Mas, sobretudo, foram comoventes e simples, como o verdadeiro amor deve ser, os depoimentos dos dois filhos do Manuel e da sua Mulher, a Fátima Campos Ferreira. O Manuel não era da geração dos patos-bravos que tomaram conta das televisões. Pelo contrário, e como recordou a Fátima, saiu de lá quando quis, pelo seu próprio pé. Posso não ter reparado, mas não vi ninguém da administração. Muito menos o Nicoleta do laço. Em compensação, vi e revi muita gente boa da RTP. Que ainda lá está ou já saiu, e aquela equipa maravilhosa de "malta" nova que faz o "Primeira Pessoa" com a Fátima. E é o que a Fátima é para mim - uma primeira pessoa. Até sempre, Manel. 

11.10.22

“Eu show Medina”

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Percorro a jornalada - só no Público são 18 páginas- e vá de orçamento para trás e para diante. Um marciano julgaria que Fernando Medina é o novo Aladino, e não um antigo autarca da capital derrotado há apenas um ano. Articulistas de “direita”, Deus me perdoe, tremelicam de encómios ao “acordo” que Costa conseguiu arrancar dos pastelões da concertação social, agora exibidos pela propaganda socialista como os novos heróis do altar da pátria. A coisa não é para mil anos, mas é às postinhas de pescada para quatro. “Eu show Medina”, e uma mão lava a outra e os jornais e as tvs lavam tudo mais brilhante. O sr. D. Fradique é que os (nos) topava. Depois de várias peripécias para chegar a Lisboa por via férrea, vindo do Porto, e já à beira do Hotel Bragança a bordo de uma caleche cujo cocheiro lhe pediu "não menos de três mil réis" pelo transporte, Fradique Mendes é reconhecido pelo homem, "à luz do vestíbulo" que lhe batia na face. "Então, são três mil réis?", pergunta. Responde o homem: - Aquilo era por dizer...Eu não tinha conhecido o sr. D. Fradique...Lá para o sr. D. Fradique é o que quiser. Humilhação incomparável! Senti logo não sei que torpe enternecimento que me amolecia o coração. Era a bonacheirice, a relassa fraqueza que nos enlaça a todos nós Portugueses, nos enche de culpada indulgência uns para os outros, e irremediavelmente estraga entre nós toda a disciplina e toda a ordem. Sim, minha cara madrinha... Aquele bandido conhecia o sr. D. Fradique. Tinha um sorriso brejeiro e serviçal. Ambos éramos portugueses.”

A República ponto dois.

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O regime actual nunca esteve tão próximo da corrupção moral e política da I República como agora. O PS, rapace e autoritário, domina o Estado e o país como o PRP fazia. O presidente não é "eleito" pelo Parlamento, e pelo partido dominante, mas está inerme como alguns dos seus ilustres antecessores citados, com a vantagem, meramente pessoal, de ir arejar frequentemente a sua impotência política para o estrangeiro. E o da Assembleia da República é um prepotente democrático que não tenta sequer a isenção política a que o cargo o obriga. Os episódios dos governantes "incompatíveis" passam pela "bimby" da ética republicana como cães por vinha vindimada. Esta "República ponto dois" está pela hora da nossa morte. Não, infelizmente, da dela.


https://www.jn.pt/opiniao/joao-goncalves/a-republica-ponto-dois-15237871.html?fbclid=IwAR0Ei3geMoO7V-5-wBSM-X1hHxAu0kd0Ymf5JIKHckqnu9-ae-2hYJwuU4s


 

3.10.22

O impasse democrático e a era das geringonças

Na segunda parte do livro "A democracia no seu momento apocalíptico", de M. M. Carrilho, que vinha a ler aqui desde a semana passada, estes transes das esquerdas autóctones, e do PS, em particular, encontram-se particularmente bem pensados (da perspectiva do autor que ainda é militante socialista de base), subtraindo-os ao circunstancialismo oportunista e tacticista dos protagonistas, e integrando-os numa visão mais alargada do impasse democrático geral, coetâneo do progresso do autoritarismo. Isto é, e como revela a forma de divulgação das sondagens e dos "estudos de opinião", cada vez mais as escolhas são de governantes e não de projectos ou de ideias (erosão ideológica, na expressão de Carrilho). E cada vez mais os governantes sucumbem, ou a sua cibernética político-partidária de apoio, diante do guiché de atendimento ao ilimitado individualismo que vocifera na longa fila de espera alimentada, há anos, pelo extremismo de centro que, entre nós, já foi do Bloco ao praticamente extinto CDS. O conceito porventura mais inovador neste livro de Carrilho é o deste aparente paradoxo, o extremo-centro, que domina a política nacional e europeia, em geral, o mais perigoso e o mais dissimulado de todos os extremos. Para dourar a pílula demo-liberal, certamente, como se a democracia - ou o indivíduo - fosse eterna. Num momento em que tudo interage com tudo (J. M. Júdice na apresentação do livro), estranhamente, ou talvez não, vivemos um tempo de ignorância (Carrilho), e persistimos felizes com isso no nosso "infotretenimento" (idem). É a "era das geringonças", no feliz neologismo de Carrilho a partir de Vasco Pulido Valente, denotada na sondagem aludida. "Era" em que as performances se sobrepõem aos programas, os interesses às ideias, o estilo à substância, o conectivo ao colectivo, o societal ao social, o consumidor ao cidadão, o indivíduo à pessoa, o global ao nacional. E é assim, "ora em júbilo, ora em depressão", que cá vamos. Não sei se cantando e rindo.


https://www.jn.pt/opiniao/joao-goncalves/o-impasse-democratico-e-a-era-das-geringoncas-15218818.html


 


 


 

2.10.22

Balázio

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Com um novo "Balázio" a rodar para o "5 de Outubro" de má memória, aqui fica o da semana passada. Repetindo-me, este é o pior governo dos três que António Costa formou. 


Tal&Qual, 28.9.2022

30.9.22

Ponto final, parágrafo

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Na Praça Vermelha de Moscovo celebra-se a reunificação de quatro regiões ex-ucranianas com a Federação Russa. No Kremlin, Vladimir Putin produziu um discurso notável, nos termos geopolíticos estritos definidos pela Rússia pelo menos desde o começo deste século. Não se trata, pois, de valorizar o acto da assinatura da reintegração daquelas regiões na FR quanto de apreciar o que o presidente russo disse. E disse muito. Nomeadamente em direcção às atordoadas lideranças políticas ocidentais que distinguiu dos respectivos "povos". Não por acaso, a primeira reacção veio da presidente da Comissão Europeia que tem alguma dificuldade cognitiva em perceber as alterações geopolíticas em curso no mundo inteiro. Depois veio tudo a reboque, com a estafada ladaínha das sanções (mais sanções) cujos resultados se têm afigurado magníficos para o "lado de cá" europeu. Zelensky, esse correu a pedir uma adesão rápida à NATO (já realizou o tempo de espera longo quanto à UE) como se, apesar da ousadia da Aliança em se estabelecer praticamente nas circunvalações russas, ela estivesse disposta a um conflito global liderado de um lado pelos EUA e do outro pela Rússia e, em certo sentido, pela China. É que, a partir de agora, gostemos ou não, as quatro regiões reunificadas com a Rússia são território dela com tudo o que isso acarreta. "Ponto final", disse Putin. Eu não iria tão longe. Talvez seja mais prudente um "ponto final, parágrafo".