31.3.04

A IMAGEM



Os inspectores do SEF anunciaram uma greve para a altura do Euro. Os polícias ameaçam protestos para o mesmo momento. Este fim de semana já apareceu uma pequena vaga de incêndios. Etc, etc. Estas coisas ocorrem no muito vulnerável sector da segurança pública e da protecção civil, sob as juras aparentemente preocupadas de todo o governo. Certo é que, tirando umas inócuas reuniões e uns inúteis congressos, nada praticamente foi feito para a "prevenção" em matéria de incêndios. A sua "época" anuncia-se uma vez mais gloriosa, com Figueiredo Lopes a continuar despreocupadamente a passar ao lado. Excelente "imagem". Já Arnaut, o ministro do Euro, diz não acreditar que nenhum português queira pôr em causa a "imagem" de Portugal, isto a propósito das "ameaças" dos homens das forças de segurança e equiparadas. Para ele, eu devo ser um "mau" português, já que me estou absolutamente nas tintas para o Euro 2004. A cepa da entourage de Durão Barroso é constituída por gente da estirpe de Arnaut, uma "promessa" que alcançou o estrelato ministerial quando o mais elementar bom senso aconselharia a que não passasse da porta de um gabinete governativo. Nada disso: é nas mãos "dele" que repousa politicamente o grande evento do ano. Lidas com maior atenção estas e outras declarações em torno da "imagem" do País, por causa das três semanas de futebol e de um espectáculo de rock, por um lado, e olhando à crua realidade, por outro, fica-se com a sensação que é completamente irrelevante que as coisas funcionem verdadeiramente ou não. O que importa é que "pareça" que funcionem, pelo menos enquanto durar o circo. Aquilo a que chamam "imagem" é, em registo débil, o "fazer de conta". Sinto que alguns membros do governo ainda não se aperceberam da imagem desgraçada de que disfrutam no País, justamente por causa do "faz de conta". E não tenho a certeza de que o primeiro ministro já tenha captado, do "conjunto", esta bela "imagem" que começa a confundir-se com a sua.

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A IMAGEM

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<strong>A IMAGEM</strong><br /><br /><img src="http://www.pressnet-dc.com/portugal/images/f2c.jpg" border="0"<br /><br /><br />Os inspectores do SEF anunciaram uma greve para a altura do Euro. Os polícias ameaçam protestos para o mesmo momento. Este fim de semana já apareceu uma pequena vaga de incêndios. Etc, etc. Estas coisas ocorrem no muito vulnerável sector da segurança pública e da protecção civil, sob as juras aparentemente preocupadas de todo o governo. Certo é que, tirando umas inócuas reuniões e uns inúteis congressos, nada praticamente foi feito para a "prevenção" em matéria de incêndios. A sua "época" anuncia-se uma vez mais gloriosa, com Figueiredo Lopes a continuar despreocupadamente a passar ao lado. Excelente "imagem". Já Arnaut, o ministro do Euro, diz não acreditar que nenhum português queira pôr em causa a "imagem" de Portugal, isto a propósito das "ameaças" dos homens das forças de segurança e equiparadas. Para ele, eu devo ser um "mau" português, já que me estou absolutamente nas tintas para o Euro 2004. A cepa da <em>entourage</em> de Durão Barroso é constituída por gente da estirpe de Arnaut, uma "promessa" que alcançou o estrelato ministerial quando o mais elementar bom senso aconselharia a que não passasse da porta de um gabinete governativo. Nada disso: é nas mãos "dele" que repousa politicamente o grande evento do ano. Lidas com maior atenção estas e outras declarações em torno da "imagem" do País, por causa das três semanas de futebol e de um espectáculo de <em>rock</em>, por um lado, e olhando à crua realidade, por outro, fica-se com a sensação que é completamente irrelevante que as coisas funcionem verdadeiramente ou não. O que importa é que "pareça" que funcionem, pelo menos enquanto durar o circo. Aquilo a que chamam "imagem" é, em registo débil, o "fazer de conta". Sinto que alguns membros do governo ainda não se aperceberam da imagem desgraçada de que disfrutam no País, justamente por causa do "faz de conta". E não tenho a certeza de que o primeiro ministro já tenha captado, do "conjunto", esta bela "imagem" que começa a confundir-se com a sua.

30.3.04

MÚSICA PARA CAMALEÕES

Leio no Diário da República que o governo renovou, sem pestanejar, a "comissão de serviço" do director do Teatro Nacional de São Carlos. A ironia desta "ópera bufa" é que, depois de ter sobrevivido a dois ministros socialistas, a vários "colegas" de conselho directivo e a umas quantas trapalhadas que andam a ser tratadas em sede própria, tudo indica que Paolo Pinamonti irá sobreviver aos que hoje o nomearam. Convém, portanto, fazer de conta que foram três anos de "paraíso". Não foram. Contudo, quem é que verdadeiramente se importa com isso? Como não sou hipócrita, não vou desejar venturas a Pinamonti e aos seus ajudantes de circunstância, fora e dentro do Teatro. Talvez a história lhes reserve uma nota de rodapé. Neste tempo de camaleões, merecem-se realmente uns aos outros. Só que a memória do Teatro merecia melhor, tal como o País merece urgentemente "outra coisa".

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MÚSICA PARA CAMALEÕES

Leio no Diário da República que o governo renovou, sem pestanejar, a "comissão de serviço" do director do Teatro Nacional de São Carlos. A ironia desta "ópera bufa" é que, depois de ter sobrevivido a dois ministros socialistas, a vários "colegas" de conselho directivo e a umas quantas trapalhadas que andam a ser tratadas em sede própria, tudo indica que Paolo Pinamonti irá sobreviver aos que hoje o nomearam. Convém, portanto, fazer de conta que foram três anos de "paraíso". Não foram. Contudo, quem é que verdadeiramente se importa com isso? Como não sou hipócrita, não vou desejar venturas a Pinamonti e aos seus ajudantes de circunstância, fora e dentro do Teatro. Talvez a história lhes reserve uma nota de rodapé. Neste tempo de camaleões, merecem-se realmente uns aos outros. Só que a memória do Teatro merecia melhor, tal como o País merece urgentemente "outra coisa".

29.3.04

CRIANÇAS... NORMAIS?

Não imaginei que voltaria a falar de Villas Boas. Ainda há bem pouco tempo, por causa de adopções de crianças por casais não heterossexuais, a criatura disse coisas fantásticas, impróprias para a sua formação e para as funções institucionais que desempenha, apesar de, nesta matéria, estar muito bem acompanhado pela generalidade da Pátria (ver o "post" O "Natural" aqui). Na semana que passou, rejeitou a hipótese de crianças portadoras de HIV poderem ser admitidas no "seu" Refúgio Aboim Ascensão. Segundo ele, o Refúgio destina-se a "crianças normais". Instado sobre isto, Bagão Félix, como é seu farisaico costume, desvalorizou, dizendo tratar-se de um mero "episódio" circunstancial que a "obra" de Villas Boas supera claramente. Eu não discuto a "obra" do senhor, certamente generosa e competente. O que considero insustentável é que Villas Boas faça constantemente da discriminação o seu verbo. Alguém meta na cabeça da criatura que a utilização do termo "normal", nestas matérias, é perigosa e tem como contraponto, pelo menos, o "anormal". Por causa da sua formação, Villas Boas deve ter lido Michel Foucault. Não aprendeu nada. Por mais quanto tempo é que vai ficar à frente da instituição que, na sua cabeça, dirige para "normais", e que é para servir crianças?

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CRIANÇAS... NORMAIS?

Não imaginei que voltaria a falar de Villas Boas. Ainda há bem pouco tempo, por causa de adopções de crianças por casais não heterossexuais, a criatura disse coisas fantásticas, impróprias para a sua formação e para as funções institucionais que desempenha, apesar de, nesta matéria, estar muito bem acompanhado pela generalidade da Pátria (ver o "post" O "Natural" aqui). Na semana que passou, rejeitou a hipótese de crianças portadoras de HIV poderem ser admitidas no "seu" Refúgio Aboim Ascensão. Segundo ele, o Refúgio destina-se a "crianças normais". Instado sobre isto, Bagão Félix, como é seu farisaico costume, desvalorizou, dizendo tratar-se de um mero "episódio" circunstancial que a "obra" de Villas Boas supera claramente. Eu não discuto a "obra" do senhor, certamente generosa e competente. O que considero insustentável é que Villas Boas faça constantemente da discriminação o seu verbo. Alguém meta na cabeça da criatura que a utilização do termo "normal", nestas matérias, é perigosa e tem como contraponto, pelo menos, o "anormal". Por causa da sua formação, Villas Boas deve ter lido Michel Foucault. Não aprendeu nada. Por mais quanto tempo é que vai ficar à frente da instituição que, na sua cabeça, dirige para "normais", e que é para servir crianças?
CRÓNICA DE UMA CANDIDATURA ANUNCIADA



Não tem manifestamente os dotes do pai, embora faça uso regular da "frontalidade" familiar. Encarou com soberba a sua "obra" municipal e julgou que, sem praticamente se mover, o eleitorado de Lisboa, agradecido, o reconduziria. Perdeu mais pelo desdém e pela indiderença com que encarou a campanha autárquica, do que por um qualquer julgamento negativo do seu desempenho. Fechado esse ciclo, ele próprio começou outra vida e quer agora regressar ao "combate" através de uma candidatura a secretário-geral do partido, a que finalmente deu letra de forma. O impulso que levou João Soares a ser desta vez mais claro é igualmente claro. Soares já percebeu que o conluio para substituir Ferro Rodrigues o ultrapassa. Apesar de não ter "tropas" como Coelho ou Sócrates, ou mesmo um Costa em fase de "desferrização", João Soares joga o seu eterno voluntarismo para cima da mesa. A altura. no entanto, não podia ser a pior. O PS não pode perder-se no seu umbigo e tem que falar à Nação, e já nas eleições europeias. Ferro tem aguentado estoicamente tudo isto. Até algumas diatribes deste blogue e dos seus próximos. Dada a grande probabilidade de ficar à frente nestas eleições, eu, se fosse a ele, antecipava o congresso para uma data qualquer imediatamente posterior ao voto. Porque a seguir vem o tal "ciclo eleitoral" que só termina nas legislativas de 2006, e o País precisa de saber qual é o rosto definitivo do PS para enfrentar um Barroso mal acompanhado e mal amado. Dê lá por onde der, e por muito que lhe custe, dificilmente esse rosto será o de João Soares.

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CRÓNICA DE UMA CANDIDATURA ANUNCIADA

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<strong>CRÓNICA DE UMA CANDIDATURA ANUNCIADA</strong><br /><br /><img src="http://sic.sapo.pt/images/articles/21569/soaresfinal.200x349.jpg" border="0"<br /><br /><br />Não tem manifestamente os dotes do pai, embora faça uso regular da "frontalidade" familiar. Encarou com soberba a sua "obra" municipal e julgou que, sem praticamente se mover, o eleitorado de Lisboa, agradecido, o reconduziria. Perdeu mais pelo desdém e pela indiderença com que encarou a campanha autárquica, do que por um qualquer julgamento negativo do seu desempenho. Fechado esse ciclo, ele próprio começou outra vida e quer agora regressar ao "combate" através de uma candidatura a secretário-geral do partido, a que finalmente deu letra de forma. O impulso que levou João Soares a ser desta vez mais claro é igualmente claro. Soares já percebeu que o conluio para substituir Ferro Rodrigues o ultrapassa. Apesar de não ter "tropas" como Coelho ou Sócrates, ou mesmo um Costa em fase de "desferrização", João Soares joga o seu eterno voluntarismo para cima da mesa. A altura. no entanto, não podia ser a pior. O PS não pode perder-se no seu umbigo e tem que falar à Nação, e já nas eleições europeias. Ferro tem aguentado estoicamente tudo isto. Até algumas diatribes deste <em>blogue</em> e dos seus próximos. Dada a grande probabilidade de ficar à frente nestas eleições, eu, se fosse a ele, antecipava o congresso para uma data qualquer imediatamente posterior ao voto. Porque a seguir vem o tal "ciclo eleitoral" que só termina nas legislativas de 2006, e o País precisa de saber qual é o rosto definitivo do PS para enfrentar um Barroso mal acompanhado e mal amado. Dê lá por onde der, e por muito que lhe custe, dificilmente esse rosto será o de João Soares.

28.3.04

APOCALÍPTICO



O Sr. Saramago, o nosso venerável Prémio Nobel, está de volta. Desfez-se em entrevistas e lança o seu Ensaio sobre a Lucidez perante uma esperável plateia de bonzos. Mário Soares e Marcelo Rebelo de Sousa encarregam-se da apresentação. A presença dos dois servirá porventura para contrabalançar as descrenças democráticas de Saramago. Quem ignorasse por completo o "estado da arte" do mundo no presente e lesse ou ouvisse a autor, podia julgar que estávamos a viver um momento Blade Runner, povoado de "replicantes" e de andróides assassinos, em luta com eficazes e "sentimentais" defensores de "boas" causas. Saramago não acredita definitivamente no homem, aparentemente já não ouve os "amanhãs" que cantam e lamenta deixar esta "merda de mundo" pior do que a encontrou. Apela ao protesto através do "voto em branco", a partir da alegoria do livro, mas lá se encaixou na lista da CDU para as "europeias". É este Saramago apocalíptico e contraditório que dois dos maiores optimistas da política portuguesa vão comentar. Cada um certamente a pensar num "futuro" radicalmente diferente daquele que Saramago entrevê ou que, por toda uma vida, andou a prometer para si próprio e para o mundo. Verdadeiramente Saramago nunca foi outra coisa senão o mesmo visionário amargurado que transparece nestas entrevistas e nos últimos livros, a milhas e milhas dos sóis radiosos que jamais brilharão.

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APOCALÍPTICO

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<strong>APOCALÍPTICO</strong><br /><br /><img src="http://www.portugal-linha.pt/literatura/saramago/gbook/saramago.gif" border="0"<br /><br /><br />O Sr. Saramago, o nosso venerável Prémio Nobel, está de volta. Desfez-se em entrevistas e lança o seu <em>Ensaio sobre a Lucidez </em> perante uma esperável plateia de bonzos. Mário Soares e Marcelo Rebelo de Sousa encarregam-se da apresentação. A presença dos dois servirá porventura para contrabalançar as descrenças democráticas de Saramago. Quem ignorasse por completo o "estado da arte" do mundo no presente e lesse ou ouvisse a autor, podia julgar que estávamos a viver um momento <em>Blade Runner</em>, povoado de "replicantes" e de andróides assassinos, em luta com eficazes e "sentimentais" defensores de "boas" causas. Saramago não acredita definitivamente no homem, aparentemente já não ouve os "amanhãs" que cantam e lamenta deixar esta "merda de mundo" pior do que a encontrou. Apela ao protesto através do "voto em branco", a partir da alegoria do livro, mas lá se encaixou na lista da CDU para as "europeias". É este Saramago apocalíptico e contraditório que dois dos maiores optimistas da política portuguesa vão comentar. Cada um certamente a pensar num "futuro" radicalmente diferente daquele que Saramago entrevê ou que, por toda uma vida, andou a prometer para si próprio e para o mundo. Verdadeiramente Saramago nunca foi outra coisa senão o mesmo visionário amargurado que transparece nestas entrevistas e nos últimos livros, a milhas e milhas dos sóis radiosos que jamais brilharão.