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27.11.11

O FADO NASCEU UM DIA


De Bali, na Indonésia, chegaram imagens de António Costa - num inglês miserável - a defender o fado. Costa apoderou-se habilmente desta campanha e apareceu como grande paladino do evento (o tal país de eventos, uma canga de que não nos conseguimos livrar), juntamente com o voluntarioso Vieira Nery. Mas estas coisas têm uma "história" e um princípio. E não foi Costa que o gizou. Seis anos depois, o Pedro Santana Lopes está de parabéns.

26.11.11

FARTO FADO

Felizmente termina hoje, em Bali, a saga do fado. Até eu, que gosto de fado, já estou farto de tanto fado e de uma candidatura cuja "história" ainda um dia será convenientemente contada.

25.11.11

O LADO DA DECÊNCIA

«Uma atitude decente é assumirmos todos as nossas responsabilidades. Não tenho ilusões: quem está de fora (a esquerda parlamentar) vai comportar-se como se tivesse chegado agora de Madagáscar; senadores e oportunistas vão comportar-se como sempre se têm comportado- cuidando dos seus interesses pessoais em nome "do povo". Os revolucionários quererão fazer o que sabem fazer: escolher pelos outros. Escolher um lado não significa escolher uma facção. Significa não fazer a escolha fácil, a que as circunstâncias sugerem como melhor para o nosso futuro individual. Escolher um lado significa ter dúvidas e esperar que essa escolha as possa resolver - o contrário é o fanatismo egoísta. Na perigosa situação actual, como não sei o que o actual governo poderia estar a fazer de diferente, escolho o lado da opção actual. Não é o lado do partido ou do governo, é o lado da decência.»

Filipe Nunes Vicente, Lathe Biosas

22.11.11

QUEM BEBE PELO GARGALO COMPRA A GARRAFA

«Jung escreveu que aquilo que não é querido nem desejado não precisa de ser interdito. Bom, mas saberemos nós aquilo que queremos e desejamos? A noção de «inconsciente» não passa precisamente pela ideia de que não sabemos? Proibir aquilo que desconhecemos pode ser excesso de zelo, mas não é totalmente absurdo. Por outro lado, um interdito provoca necessariamente um desejo daquilo que foi interditado. Será esse desejo «genuíno»? Mas quem é que decide quais são os desejos genuínos e quais os fictícios? Nos tempos da Lei Seca é que havia aquela grande frase: Antes a lei seca do que não haver álcool.»

Pedro Mexia

16.11.11

FAZER O QUE É PRECISO FAZER



Com um abraço especial para o trabalhador incansável e para o patriota que é o Carlos Moedas.

15.11.11

O REGRESSO DO EMPLASTRO

O grande momento da noite televisiva transmitida a partir de Benfica foi, sem dúvida, o regresso do "emplastro". Lá andava ele a rondar todas as câmaras de todas as televisões, silencioso e estático, antes da coisa começar. Os adeptos ruidosos que aparecem a pular no fim, sem conseguir dizer coisa com coisa, têm algo a aprender com o nosso homem.

10.11.11

LER E OUVIR OS OUTROS

Gratificante a inteligência, a acutilância, a liberdade de espírito e a coragem cívica reveladas por Viriato Soromenho-Marques na apresentação deste livro. Cada vez mais precisamos de gente desta, preocupada genuinamente em reflectir sobre a coisa pública e não em servir-se dela para falar de si ou tratar da vidinha - a mesquinhice intelectual é uma contradição nos termos.

8.11.11

A RAZÃO DO MINISTRO


Há dias exprimi aqui a minha preocupação pela hipótese de o Metro de Lisboa encerrar a horas estapafúrdias. Percebi entretanto que se tratava de uma de várias hipóteses em estudo e que nenhuma decisão definitiva fora tomada a esse respeito. Por isso congratulo-me com esta posição do ministro da Economia. «Nenhuma capital europeia fecha o metro as 11 da noite. À partida, não faz sentido.» Tem razão. Não faz.

5.11.11

CINCO CHEGA

«Oficialmente, temos 14 feriados por ano em Portugal. De facto, temos mais e, até agora muito mais. Temos, primeiro, os feriados nacionais e, ao contrário de toda a gente, logo dois: o 1º de Dezembro e 10 de Junho. Tanto um como outro são meio inventados. O 1º de Dezembro supostamente comemora o fim do domínio espanhol, que na realidade não foi um "domínio", mas só uma união de Estados que continuaram independentes, sob o mesmo rei. O 10 de Junho, que para efeitos cerimoniais se chama "Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades" (e dantes se chamava "Dia da Raça") é em princípio no dia da morte de Camões (que ninguém sabe quando morreu) e parece que se destina a exaltar disfarçadamente o Império, que já acabou e de que, num tempo de correcção política, se não pode falar. A seguir, temos feriados políticos: que são três. Como era inevitável o 25 de Abril, a data da "revolução dos cravos", em que o regime celebra o fim da Ditadura e a presuntiva glória da sua obra; o 5 de Outubro, que introduziu uma República jacobina em Portugal e promoveu 15 anos de perseguição e violência; e, finalmente, o 1º de Maio, uma velha festa internacional dos trabalhadores, quando os trabalhadores eram "o proletariado". O resto dos feriados - nove - são feriados religiosos, por vezes misturados com um pouco de nacionalismo, que seguem o calendário da Igreja Católica (mesmo o Carnaval, que, não por acaso, precede a Quaresma). Nenhum destes 14 feriados, excepto o Natal, suscita ainda qualquer espécie de fervor: nem os nacionais, nem os políticos, nem os religiosos. Servem só - em combinação com sábados, domingos, feriados municipais (que nada impede um qualquer município de estabelecer) e "pontes" - para aumentar o recreio e repouso da população em várias semanas por ano. Com o compreensível propósito de acabar com isto, o Governo anunciou que iria diminuir o número de feriados; e a Igreja Católica, percebendo a sua fraqueza, ofereceu quatro. Ignoro o que o Governo pensa sobre o assunto, se pensa alguma coisa. Mas, razoavelmente, num Estado laico não devia haver mais do que três feriados religiosos (Natal, Ano Novo e Sexta-Feira Santa). Como num Estado pequeno e indigente não devia haver mais do que dois feriados, por assim dizer, civis: o 25 de Abril, fatalmente, e, para não pôr muito nervosa a esquerda, o 1º de Maio. Cívica e espiritualmente passávamos muito bem com estes cinco.»
Vasco Pulido Valente, Público

29.10.11

A ANA, SEMPRE A ANA E CADA VEZ MAIS SÓ A ANA

«Cavafy, o grego, não conheceu Kadhafi, o líbio. Este, chefe de Estado entre 1969 e 2011, foi assassinado a 20 de Outubro último. A sua morte foi registada em directo; a não ser que — à semelhança de No Palácio do Fim de Martin Amis — Senad el Sadýk el Ureybi — o rebelde líbio que disse perante as câmaras não lhe agradar “a ideia de ele ser capturado vivo” e daí ter-lhe dado dois tiros, “um na cabeça, outro no peito” — se tenha enganado no alvo e atingido tão-só um sósia. Não vi o vídeo e para o caso tanto faz. Não vi, como não vi o da criança chinesa atropelada, do enforcamento de Saddam ou da decapitação de Daniel Pearl. Em jovem assisti, por militância cultural, a 120 Dias de Sodoma de Pier Paolo Pasoloni. Enouhg is enough. Leio agora que foram divulgadas mais imagens dos últimos momentos do alucinado, que apenas acrescentam crueldade à crueldade. Entretanto, o Ocidente festejou a queda do ditador — um “líder carismático”, nas palavras de José Sócrates (convidado de honra do 41º aniversário da revolução líbia), que ainda em finais de 2007 acampava no Forte de São Julião da Barra, era recebido com pompa pelo governo português e até dava “aulas” sobre os “Problemas da Sociedade Contemporânea” na reitoria da Universidade Clássica de Lisboa. Não se pense, porém, que a hipocrisia foi exclusivo da “diplomacia económica” de Sócrates/Amado. Aznar,González, Prodi, Berlusconi, Sarkozy, Putin, Barroso, Lula, Chávez, Fidel, Condoleezza Rice, Obama… nenhum faltou ao beija-mão. A alguns narizes, o smell do petróleo cheira melhor que o nº 5 da Chanel. A indiferença com que reagiram à ignomínia do assassínio do homem diz bem do novo paradigma que assinala o caminho do declínio: em vez das públicas virtudes, Estado de Direito e tal, acção directa, no caso, versão kiss, kiss, bang, bang. É o regresso ao Far West, mas sem bons — só feios e maus. Citando Cavafy, o poeta que não conheceu Kadhafi: “E agora, que vai ser de nós sem os Bárbaros? Essa gente, mesmo assim, era uma solução”.»

25.10.11

PENSÁ-LO


«Pensar Portugal? Mas mais ou menos todos sabemos já o que ele é. O que importa agora é apenas «pensá-lo» — ou seja, pôr-lhe um penso...»

Virgílio Ferreira, Conta-Corrente 2 (via Notas Verbais)

24.10.11

UMA SEMANA DE TELESPECTADOR EM PORTUGAL


«Esta semana fiz uma curiosa pesquisa: ver, em cada um dos três canais comerciais, quais os cinco programas mais vistos. Na RTP 1, o TOP 5 é preenchido com quatro programas de informação (três deles Telejornais) e um jogo de futebol. Na SIC, regista-se uma emissão do Peso Pesado, três programas de informação (todos Jornal da Noite) e um jogo de futebol. Na TVI, diversas emissões da casa dos Segredos ocupam quatro lugares do top 5 e a restante pertence a um Jornal das Oito. Se avaliarmos por tipologias os 20 programas mais vistos da semana encontramos sete reality shows (seis Casa dos Segredos e um Peso Pesado), 3 jogos de futebol, 7 programas de informação e três de ficção (novela Remédio Santo). A TVI continua a liderar com 25,8% de share médio durante a semana, seguida da SIC com 21,8% e da RTP 1 com 19,8%. O conjunto dos canais de cabo registou 26,8% de share, com a SIC Notícias, Hollywood, AXN, Sport TV e Disney a ocuparem os cinco primeiros lugares.»

Manuel Falcão, Lugares-Comuns

19.10.11

DETALHE


Há coisas difíceis de explicar. Mas têm de ser explicadas. Ao pormenor.

18.10.11

CONTINUAR


«I hope against all hope.»

15.10.11

O "AR MODERNO" E A REALIDADE


«Poderíamos desejar tudo diferente, mas é este [Governo] que temos e se, no final, chegar a 2012 e 2013 cumprindo os objectivos do défice, fará bem. Esta vontade existe no Governo e isso é muito positivo. A consciência da emergência também existe, e isso também é bom.»

José Pacheco Pereira, Público


«Só ficou espantado com o discurso de Passos Coelho quinta-feira quem pertencia à larga parte dos portugueses que achavam a nossa vida normal até agora: tanto a nossa vida como indivíduos, como a nossa vida como país. Se era razoável copiar a Europa, sem o dinheiro da Europa, então fomos razoáveis. Sucede que não era e nós fomos colectivamente loucos. Não havia um "Estado social", resolvemos fazer um "Estado social" e também (porque não?) auto-estradas por toda a parte, monumentos sem destino e sem utilidade (o CCB), estádios de futebol, exposições, rotundas (para a província) e bairros sobre bairros para os subúrbios de cidades que, de resto, iam pouco a pouco morrendo. Portugal ficou com um ar "moderno", não ficou?»

Vasco Pulido Valente, idem

FENÓMENOS DO ENTRONCAMENTO

1.10.11

O CZAR SINDICAL

Na Rússia, o sr.Putin admite a "alternância" entre ele e o actual presidente. De tal forma que o sr. Medvedev já anunciou que o sr. Putin lhe sucederá, e ele ao sr. Putin enquanto chefe do governo. E assim sucessivamente. Entre nós, o dr. Carvalho da Silva alterna permanentemente com ele mesmo. Passam governos, presidentes, autarcas - tudo gente que sobe ou desce consoante o voto popular - e o dr. Carvalho persiste, indemne, na sua cátedra sindical. À sua maneira (e à nossa) é um czar.

OS DOUTORES DULCAMARA




«Os economistas e espécies análogas, com a sua incerta ciência e a sua prática de explicar o inexplicável, têm feito muito mal ao mundo. A crise, infelizmente, multiplicou a espécie ou, pelo menos, fê-la sair dos buracos universitários e outros por onde andava escondida, escrevendo livros e artigos que ninguém lia ou a que ninguém ligava. Agora, pontifica pela televisão e pelos jornais, onde vende opiniões com a convicção com que antigamente os boticários e os médicos vendiam ervas para doenças incuráveis. O público, aterrorizado, ouve e acredita e não pergunta por que razão aqueles sábios dizem isto em vez daquilo ou, mais precisamente, porque ainda se atrevem a dizer seja o que for, quando, com toda a sua erudição e importância, nos levaram a um enorme desastre, que era seu dever evitar. O único que nos preveniu, durante anos e com a força que as circunstâncias mereciam, acabou por ser o dr. Medina Carreira. Ora, Medina Carreira, para a gente que se acumulava nos bancos, nas universidades e no Estado (quando não nos três sítios ao mesmo tempo), era um excêntrico e um desequilibrado e não se devia manifestamente tomar a sério. Não que os números que ele mostrava e tornava a mostrar à populaça estivessem errados ou que os sarilhos que ele anunciava não se começassem a aproximar a olhos vistos. De maneira nenhuma. Só que os srs. economistas achavam, e continuam a achar, que não se deve perturbar, e menos assustar, uma entidade angélica a que chamam os "mercados". Até ao dia em que os "mercados" os perturbam e assustam a eles, querem "confiança" e mais "confiança". Mas como ir buscar essa tão recomendada confiança a génios que deixaram um país pobre e desgovernado como Portugal acumular milhares de milhões de dívidas, que jamais poderá pagar? Não existia lá nos livros um capítulo sobre o assunto?»

Vasco Pulido Valente, Público

30.9.11

GALA, A OUTRA


«A RTP1 fez no domingo mais uma "gala". Chamou-se Amigos para Sempre. Foi mais ou menos assim: num ecrã gigante passavam bocadinhos, já vistos cinco mil vezes, de artistas e actores, dos anos 50 até ao passado recente; na sala, a plateia aplaudia os artistas nestes pedacinhos; um artista ou personalidade entrava em palco e recordava maravilhosos momentos e qualidades dos artistas ou actores mostrados no ecrã gigante; a plateia aplaudia a homenagem dos presentes aos passados; as intervenções eram entremeadas e interactivadas por duas grandes figuras da RTP actual, o apresentador de concursos e talk shows José Carlos Malato e a apresentadora de talk shows e concursos Sónia Araújo; cada um elogiava o outro; houve efusões de cloreto de sódio de uma ou outra lágrima furtiva. E assim começou e assim acabou a "gala". A "gala" intentava fazer a ponte das "novas gerações" para as antigas. Grupos de jovens na plateia, coitados, fizeram de cenário humano aplaudente. O programa exibiu a concepção de cultura vigente na RTP1. Só existe quem passou pela RTP, em programas ou em filmes canónicos dos anos dourados da comédia no tempo da ditadura. O mundo cultural, popular ou não, exterior a este paradigma cultural da RTP ficou oculto. A cultura RTP1 começa em João Villaret e acaba em Mariza. Tem os seus máximos expoentes nuns cinco segundos, de uma peça de teatro de hora e meia, em que Palmira Bastos diz que morre de pé, como as árvores, noutros tantos segundos de Villaret declamando/cantando "tocam os sinos na torre da igreja", Amália num fado, Ivone Silva num quadro de revista. Não vai mais longe do que onde chega a memória mais singela de qualquer pessoa que visse televisão nas últimas décadas. Sempre o mesmo modelo de cultura popular. Veio de Itália nos anos 60 para a RTP - e o modelo RAI vinga até hoje. Trouxe-o Luís Andrade, realizador que foi mais de uma vez director de Programas da RTP1, pai de Hugo Andrade, o actual director de Programas da RTP1, pai de Serenela Andrade, apresentadora da RTP, pai de Ricardo Andrade, responsável do canal RTP Memória, e irmão de Francisco Andrade, que foi também realizador da RTP. A "gala" convocou os jovens de hoje para uma evocação sem sentido, fora de contexto e sem qualquer substância, embrulhando-a num vazio absoluto, mais Malato do que Amélia Rey Colaço, mais Sónia Araújo do que Mário Viegas. Pelo palco do Tivoli passaram, como vultos, pessoas amáveis, uma ou outra comunicando em directo com o reino dos mortos congelados por trás de si no ecrã gigante. Eunice Muñoz, percebendo a natureza profunda da "gala", disse que em breve ela mesma juntar-se-á aos homenageados evocados a preto e branco. Ela sabe que haverá uma "gala". Um dos convocados a recordar os falecidos foi António Pedro Vasconcelos, cineasta e agora ex-comentador num desses programas de "serviço público" em que falam ou gritam adeptos de três dos clubes de futebol portugueses. Vasconcelos aproveitou o momento em que recordou Milu para defender a RTP contra "a privatização", a RTP que, disse, faz "galas" maravilhosas como aquela. Dias depois, o mesmo Vasconcelos anunciou que deixava o programa Trio de Ataque (RTPN), onde altos valores de "serviço público" ao seu clube o levaram a insultar o representante de outro clube, Rui Moreira, que abandonou de imediato e ao vivo o programa. Razões que adiantou para sair? Não quer que o acusem de defender o "tacho", agora que se prepara para uma cruzada nas ruas em defesa da RTP, EP, ameaçada de "privatização". Promete, se necessário, qual Martim Moniz, lançar as suas secas carnes e altura imensa para impedir que os mouros fechem o portão da RTP! Ora, antecipando-se ao Governo, que anunciou a privatização da concessão de um canal (e não da RTP), quem faz uns ameaços de fechar a RTP1 são as audiências. A "gala" em que Vasconcelos já anunciava o seu automartírio teve um share de 14,0%, num dia que foi para a RTP1 o segundo pior do ano. Em Setembro, a RTP1 está com a menor audiência do ano. O modelo Andrade & Andrade vai de "gala" em "gala" até ao dia em que terá mesmo um grande "galo".»

Eduardo Cintra Torres, Público