
Assisti ontem, pela primeira vez, a umas provas de doutoramento, no caso, de sociologia. De lá saiu, com um antigo "muito bom com distinção", o João Pedro George. Ainda pôde escrever ao abrigo da legislação pré-Bolonha o que lhe permitiu elaborar um valente calhamaço dedicado a Luiz Pacheco. Os métodos foram os da sociologia e não os dos estudos ditos literários porque George tinha precedido este trabalho de um outro, sobre o "meio literário português (editado na Difel), o resultado do seu mestrado em sociologia da literatura. Entretanto leccionou na Universidade Nova essa mesma sociologia da literatura - com sucesso, se bem entendi as palavras do júri, com uma frequência de uns cento e vinte alunos - que foi, por circunstâncias diversas, varrida do currículo daquela disciplina, a sociologia. Da mesma maneira que George, por outras ou as mesmas circunstâncias, não ficou na universidade onde apenas regressou para este doutoramento. As universidades portuguesas, como o universo em má hora globalizado, estão pejadas do bom e do mau. Bolonha contaminou tudo no sentido tendencial da preponderância do mau. O João Pedro George é muito bom mas o "meio" é, genericamente, uma infelicidade. Por isso é preciso ganhar a vida de outras formas para pagar os mínimos da existência. Pelo contrário, há os muito maus a quem lhes sobra em complacência do "meio" o que lhe falta em talento e ética. Temos um projecto a dois em torno destas coisas literário-literatas que começaremos em breve. Quando acabarmos, estaremos porventura tão divertidos como isolados (mais do que o costume). Porque, parafraseando o George no prefácio do livro da foto, nestes "assuntos" como em quase todos, é preciso ser rude, torcido, cruel, inconveniente, excessivo, indelicado e dar "respostas chulas". «Quando à nossa volta o clima mental é lúgubre e estéril; quando o meio literário [qualquer "meio] em que vegetamos não promove o espírito crítico, antes o comércio escuro e as mútuas mesuras (mas isto é como malhar em ferro frio, quem é que quer saber disso?), abençoado Pacheco! Num ambiente destes, repito, as judiarias e o temperamento belicoso do Luiz tinham um efeito desinfectante. E atirar à cara dos obsoletos literatos locais uns quantos raciocínios sumários, aplicar-lhes algumas dentadas de cobra cascavel, fazendo-lhes sangrar o orgulho, era um dever, mais, era um sinal de civilização.»