
Levei mais tempo a passear o cão do que o regime, nos Paços do Concelho de Lisboa, a celebrar o "5 de Outubro". Fora a homenagem a Raul Rego, um patriota e um homem bom, a cerimónia apenas disse respeito aos presentes. E porventura não a todos. Os jornalistas só queriam "saber" do dr. Rui Machete e foram prudentemente colocados entre baias para não maçar. Ao longe, os crónicos da CGTP reclamavam "demissão" em abstracto. O corpo diplomático, presente em peso, olhava decerto para isto com a indulgência e a curiosidade de quem contempla, por exemplo, uma alegoria folclórica ou um rito primitivo. Estão habituados. O regime, como ontem explicava Vasco Pulido Valente no Público, entrou definitivamente num registo de loucura, um novo "viver habitualmente", adaptado de Salazar, em que as falácias ditas ou sugeridas com a gravidade das grandes certezas (e das grandes mentiras), são o "programa de vida" dos principais protagonistas. Por exemplo, no parlamento, o primeiro-ministro perguntado sobre os cortes retroactivos - no sentido em que vão ser aplicados a partir dessa "fortuna" que são 600 euros a pensões da CGA que as pessoas já auferem -, respondeu que ninguém ia ser obrigado a "devolver a sua pensão" como se os seus interlocutores (e quem o seguia nos media) fossem todos parvos. Trata-se de um caminho de "divergência", e não de "convergência", entre cidadãos no qual uns (os do costume) são penalizados por toda a vida terem servido o "interesse público" que, supostamente, o "5 de Outubro" quis dignificar. Cavaco bem pode falar de "igualdade" republicana entre todos os cidadãos e de que "ninguém está acima da lei". Ou António Costa decretar que não vale tudo na política. Enganam-se. O que não falta é quem esteja, não acima, mas "em cima" da lei, sentado nela para ter a certeza que a lei nem sequer esperneia. Como em 1910, este regime aproxima-se do ocaso. Mesmo sem Rotunda (ninguém saberia onde enfiar-se nem a pé nem de automóvel), mais tarde ou mais cedo haverá uma "nova República". E a actual será devidamente homenageada, com a meia-hora que lhe foi dedicada hoje, no jazigo de família onde há muito já devia repousar.
Portugal não existe. Nem como república, nem como democracia, nem como estado de direito, nem como país. E o que se viu hoje foi uma peça teatral bufa representada por actores de segunda.
ResponderEliminarPara quando a "hora"? "Quosque tandem, Catilina, abutere patientia nostra?" Já tarda!
ResponderEliminarA tentativa de Passos Coelho explicar ao país que retroactivo não é retroactivo, é mais um episódio grotesco.
ResponderEliminarExcelente texto.
ResponderEliminarA verdade bem exposta.
Belo texto, sem dúvida! A chatice está em que, mesmo para mudar de regime, é preciso haver quem pague e nenhum tipo de cobarde dos que hoje grita me parece que esteja disposto a bancar essa empreitada. Curioso, pensar que o 25 de Abril se fez porque todo aquele material bélico, combustível e praças estavam pagos...
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