2.3.12

Somos poucos


 


Apanhei, de repente, o final desta reportagem na sicn sobre o fim da Livraria Portugal, acontecido ontem. Comoveu-me ver aquele punhado de seres humanos, amigos dos livros, à porta da Livraria e um deles dizer que, agora, não mais se ia levantar às sete e meia da manhã para subir a Rua do Carmo como sempre fez durante dezenas de anos. E comoveu-me ver o mais novo deles todos com lágrimas nos olhos. Entretanto, o país ululante está enfiado aos molhos num estádio de futebol e os coitadinhos que não estão acompanham a coisa pela televisão ou pela rádio enquanto se anunciam "debates" sobre o extraordinário "tema", pela noite fora, com hordas de comentadores da especialidade. Definitivamente não pertenço a este "país". O meu país é o daqueles homens e daquelas mulheres à porta da Livraria Portugal, na Rua do Carmo em Lisboa, pelas 19.40 do dia 29 de Fevereiro de 2012. Nas palavras de Rui Cinatti - que lhes dedico - «somos poucos mas vale a pena construir cidades e morrer de pé.»

9 comentários:

  1. Também repararei. O país real não é bonito de se ver. Estamos perante uma crise que se pode agravar e temo que o salva-se quem puder se torne cada vez mais presente.

    ResponderEliminar
  2. domedioorienteeafins.blogspot.com10:16 p.m.

    Fui durante muitos anos frequentador e cliente da Livraria Portugal. A dificuldade na importação de livros estrangeiros afastou-me parcialmente para outras livrarias (ainda não existia a Amazon ) . Mas nunca abandonei por completo a Portugal, e não estive hoje lá, nessa despedida de mais uma casa recheada de tradição que encerra em pleno Chiado, por absoluta indisponibilidade.

    "Piano, piano", a memória de Lisboa vai-se esboroando. Começo a não me reconhecer nesta cidade.

    ResponderEliminar
  3. o país urbano vai morrendo aos poucos. gasta, desequilibra a bnalança de pagamentos e não produz.
    os industriais que geram riqueza estão no Norte e Centro.
    os serviços públicos da capital precisam de ser capados.
    desapareceu no Chiado: o Martins & Costa, as casas de tecidos, as ourivesarias e agora a Portugal.
    hoje no continente éramos 1/2 dúzia
    os outros iam ver os índios e ficaram às escuras

    ResponderEliminar
  4. o tal leitor12:02 a.m.

    Associo-me ao Requiem. Mas tambem é verdade,como se diz na peça,que o Chiado deixou de ser o que foi,a Sá da Costa tambem titubeia,e onde estão as tertúlias? E a presença próxima e mastodôntica da FNAC? Confesso que no meu tempo de Chiado,era mais de passar pela Bertrand e Sá da Costa do que pela Portugal,embora tambem lá fosse,e lá tivesse comprado alguma coisa. Mas a minha favorita ainda era a Buchholz,hoje reduzida a um mostruário inepto. Suponho que quem ia à Buchholz passa hoje pela FNAC e serve-se sobretudo da Amazon. Compreendo e partilho a nostalgia,mas não significa necessàriamente que tenha desaparecido a Cultura e só exista o futebol. Já nos "outros tempos" os dois coexistiam. Trata-se talvez mais do fim de uma certa forma de convivência do que da "prática cultural" que assume outras vias,outros locais,outros contactos. Veja como a investigação e publicação na área da nossa História está vivíssima,e o sucesso que têm tido os trabalhos sobre o século XIX e o Estado Novo. Fechou a "Portugal",mas não fechou Portugal. Por enquanto,pelo menos...

    ResponderEliminar
  5. E continuamos "nesta apagada e vil tristeza"! Até quando?

    ResponderEliminar
  6. João,

    A bovinidade " é persistente.

    Todos perdemos com este desaparecimento. Sou do Porto nunca fui à Livraria Portugal.
    Mas quando se perde o trabalho não se perde só dinheiro, perde-se as relações sociais -morre-se mais depressa.
    Muitos tentaram a educação do Povo e falharam.
    Este nosso Povo parece resistir mais do se espera à cultura que vai para além do pontapé na bola dos copos nas romarias.

    ResponderEliminar
  7. Também vi a reportagem, uma tristeza. Estava na bicicleta do ginásio que por sinal, encontrava-se vazio, tal a "alegria" dos habituais utentes poderem ver o seu clube perder em casa. Como se fosse o fim do mundo, as "télebizões" transmitiram durante horas a fio, os transcendentes pareceres dos técnicos da mania nacional. Um asco a pedir censura. Bah...

    ResponderEliminar
  8. Nesta estrumeira do mastiga e deita fora, do mais ou menos, o que vale um Homem? Sem Cultura, sem Estética sem Moral somos lixo.

    ResponderEliminar
  9. fatima Padinha5:49 p.m.


    Desolador, não é?
    Pergunto-me: que raio de país é este? Que raio de povo somos nós? Que raio de espera é a nossa? Que raio nos irá acontecer ainda? É retórica, lógico ... sei que n existem respostas.
    Parabéns pelo post, regra geral gosto do que escreve!

    ResponderEliminar

"Sujeito a aprovação prévia"