31.7.09

HUBRIS


O copy/past do pequeno Vitorino.

HUBRIS



À meia-noite começa oficialmente a silly season. Este ano é prolongada até 27 de Setembro. Até apareceu a Joaninha, na Sic-Notícias, a confirmar que foi convidada para deputada do PS pela "quota do dr. Soares da terceira encarnação". O autor material do convite foi o secretário de Estado do eng.º Lino, Paulo Campos, filho de António Campos, um velho amigo do detentor da quota. Pelos vistos, outro rapaz com uma relação difícil com a verdade. Palavra da Joana. E quem é que não acredita naqueles olhos e naquela voz? A hubris é uma coisa terrível.

Adenda: Campos (o júnior) veio depois com umas explicações que não explicaram nada. Só retive que ele "defendia os interesses do PS". Com "defensores" deste nível bem pode Sócrates dar ao pedal. Sozinho como ele gosta. Ah, senhor primeiro-ministro, as fúrias não o poupam. Leia os clássicos no intervalo dos anúncios.

QUEM QUALIFICA O QUÊ E COMO


A propósito do milhão de computadores entregue por Sócrates, Lino e Lurdes Rodrigues - isto é, pelos contribuintes - por aí, especialmente no que concerne aos Magalhães, um amigo avisado fez o comentário certeiro esta manhã ao café. Nenhum computador deveria entrar numa sala de aula sem ser pela mão de um professor.
Adenda: Ler isto.

"CONSCIÊNCIA CRÍTICA"


«Um em cada três eleitores portugueses não votou nas europeias por falta de confiança ou insatisfação quanto à política (28 por cento), revela o primeiro Eurobarómetro realizado após as eleições de 7 de Junho. Na lista das razões para ter ficado em casa, o Eurobarómetro hoje divulgado revela que 23 por cento dos inquiridos respondeu : desinteresse pela política. Um em cada dez dos inquiridos é da opinião que o voto não tem consequências e não muda nada (11 por cento). São números que acompanham a opinião geral na Europa.» Lê-se no Público. Sublinhado meu. A isto pode chamar-se perfeitamente "consciência crítica" do eleitorado. E da boa. Vá lá, profissionais da "consciência crítica". Mexam-se. Há uns que estão de férias há quase dois meses e outros vão agora. Depois não se queixem.

HUBRIS


O PS-Açores, do sr. César, reagiu ao acórdão do Tribunal Constitucional através do sr. Ricardo Rodrigues. Pensava que o PS tinha atingido o o seu acme da semana com o anúncio do bebezão Silveira sobre os cheques-bebé. Não. Rodrigues superou o continental. No pathos e na falta de sentido do ridículo. Falou em "centralismo" do TC, de Cavaco e, imagine-se, de Ferreira Leite que tem muito a ver com o assunto. Também mencionou "a maioria dos analistas e escreventes" provavelmente para contrapor ao seu crónico analfabetismo funcional. Aos poucos o PS conhece a sua hubris.

A "CAUÇÃO"


Na "conversa em família" na SIC- Notícias debateu-se o famoso encontro de blogues com Sócrates. Pacheco Pereira falou em "caução" e Lobo Xavier foi pelo mesmo caminho. Pelo menos seis bloggers claramente desafectos ao PS - José Mário Silva, Rodrigo Moita de Deus, Tomás Belchior, João Maria Condeixa, Tiago Moreira Ramalho e eu próprio - estiveram lá e não consta que viessem "infectados" ou que tivessem "caucionado" o que quer que fosse. Penso que JPP e Xavier (outros talvez sim) não estavam à espera de uma cena de boxe político e de ordinarice. Depois, o José Pacheco Pereira e o "Toninho" Xavier são as derradeiras pessoas com autoridade para falar em "caução" a propósito disto. Enquanto nós estivemos quatro horas com Sócrates, eles estão o ano inteiro com o "número dois" de Sócrates, semanalmente e numa televisão, sabendo que Costa é candidato à maior câmara do país contra a coligação que integra os partidos de que ambos são militantes. Eu, pelo menos, tenho a vantagem de não ter de arremessar o cartão contra ou a favor de quem quer que seja. A enorme de não ter de "caucionar" ninguém ou de me armar em patrulheiro moral da blogosfera. Como recomendaria o meu amigo João Pedro George, tentem, finalmente, «encarar a coisa filosoficamente: «foda-se.»

30.7.09

POBRE LISBOA


António Costa escolheu a D. Simonetta Luz Afonso - uma espécie de eternidade "cultural" do regime - para candidata à presidência da assembleia municipal de Lisboa pelo "acordo coligatório" que junta o PS, o ex-Zé faz falta e Helena Roseta. A escolha, aliás, é emblemática. A senhora aposentou-se da função pública mas, a pedido de várias famílias, continuou a dirigir o Instituto Camões. É mais uma insubstituível. De resto, aparecem Catarina Vaz Pinto - uma irrelevante secretária de Estado da Cultura de Carrilho que sucedeu ao funesto "clac" Rui Vieira Nery e que entretanto casou com o bonzinho Guterres - e uma tal de Dalila Araújo que é governadora civil de Lisboa, manifestamente uma cacique do partido (tinha estado no gabinete do Joãozinho quando ele presidiu à CML). É a quadratura do círculo com catorze anos de atraso, tantos quantos andamos a aturar o PS e, em particular, o António Costa (no interregno da direita era o líder parlamentar). Pobre Lisboa.

A ARANHA DA VIDA


Depois de jantar, passei por uma livraria e peguei no livro As Cantinas e Outros Poemas do Álcool e do Mar, de Malcolm Lowry, seleccionados e traduzidos por José Agostinho Baptista (Assírio & Alvim, 2008). Serve este, "roubado" ao José Mário Silva.

OS BÊBADOS

O ruído da morte está neste bar desolado
Onde a tranquilidade se senta inclinada sobre a sua oração
E a música abriga o sonho do amante
Mas quando moeda alguma compra este fundo desespero
Nesta casa tão solitária
E de todos os destinos o mais solitário
Onde nenhuma música eléctrica destrói o bater
Dos corações duas vezes quebrados mas agora reunidos
Pelo cirurgião da paz no peróneo da desgraça
Penetra mais profundamente do que os trompetes
O movimento da mente que aí faz a sua teia
Onde as desordens são simples como o túmulo
E a aranha da vida se senta, dormindo.

A LEI ORDINÁRIA


O Tribunal Constitucional deu razão ao Chefe de Estado em relação às dúvidas que levantou acerca do Estatuto do sr. César dos Açores. Há um ano meio mundo "indignou-se" por Cavaco ter interrompido o estúpido remanso das férias para falar ao país sobre o que se preparava. Os deputados - e estiveram todos de acordo mesmo os que, depois, como os do PSD, propuseram a fiscalização sucessiva do Estatuto sem seguir as observações do Presidente aquando da votação - alteraram, na prática, o equilíbrio de poderes através de uma lei ordinária. No duplo sentido do termo. Agora foram postos no seu devido e ignorante lugar pelo Tribunal. O pior é que não aprendem nada.

PARABÉNS À PRIMA

Infinitamente mais perigosa que a H1N1 é a justiça portuguesa. A nossa Fatinha Felgueiras foi absolvida em 1ª instância, em Felgueiras, (será que o procurador da Mota já lhe deu os parabéns?) e Carmona Rodrigues e os seus vão a julgamento em Lisboa. Dizia-me há uns anos uma colega magistrada que tinha sido treinada para analisar prova. Pelos vistos, ainda têm muito ginásio pela frente.

UM ACADÉMICO PORTUGUÊS


António Nogueira Leite é uma luzidia figura da academia económica nacional que o país, muito apropriadamente, ignora. De vez em quando é chamado a ornamentar debates televisivos, em especial os promovidos pela D. Fátima Campos Ferreira. Nogueira Leite, porém, encarnou no derradeiro governo do bonzinho Guterres como secretário de Estado de Pina Moura. Algures, convenientemente antes do pântano, foi-se embora. Recentemente esteve ao lado do "jovem" Passos Coelho na sua cruzada infinita pela chefia do PSD. Ter-lhe-á, porventura, dado conselhos (académicos) da especialidade. É mais um liberal à moda portuguesa e imagino como isso terá inspirado a extraordinária e imaginativa cabeça do "jovem" Passos. Agora, Nogueira Leite é aproveitado pelo Simplex - leia-se, pelo PS blogosférico - para denegrir o deputado Miguel Frasquilho, do PSD. O argumentário é digno da acaciana figura do senhor professor doutor. «É por escrever o que às vezes escreve que o deputado Miguel Frasquilho é desconsiderado na Academia. tenho pena, pois é bom rapazinho "http://twitter.com/anleite/status/2909325345".» Repare-se na maiúscula "Academia" - a que ele pertence, pelos visto, com orgulho - e no paternalista "rapazinho" aplicado a Frasquilho, um frequentador da nojenta política que Leite debicou com Pina Moura, um verdadeiro "modelo" nacional de político desinteressado. É por haver na "Academia" tanto provinciano soberbo como Nogueira Leite - a quem os aninhos na academia estrangeira não mudaram a essência - que o país está assim tão bem e se recomenda. Da universidade para os governos, dos governos para as televisões, de Pina Moura para Passos Coelho, a cartilha de Nogueira Leite é uma velha conhecida destes trinta e cinco anos. É pena que, sendo tão novo, já esteja assim.

Adenda: Paulo Gorjão - alguém que está sempre bem informado acerca dos meandros do métier político, nacional e internacional, e que se tomou de amores serôdios pelo "jovem" Passos, passe o termo - esclarece que o professor doutor Nogueira Leite, para além dos atributos referidos, também integra o Instituto Sá Carneiro (logo, segundo as simplificações intelectuais do Paulo, está com Ferreira Leite) e que Miguel Frasquilho apoiou o referido "jovem" aquando da disputa interna do PSD (logo, e na mesma linha, é a demonstração viva da generosidade político-partidária dos apoiantes de Coelho). Com o devido respeito, em que é que isso muda a natureza das coisas e dos homens? De Nogueira Leite? De Frasquilho? De Passos Coelho? Da "Academia"? A sua? A minha, por ter estado a falar com José Sócrates? Pensava que o Paulo já era mais crescidinho do que isto.

A NÃO PERDER...


Estes "ecos para o bloguista instruído", do Almocreve. Há para todos os gostos dentro daquela "liberdade respeitosa" (também prefiro "responsável") advogada pelo secretário-geral do PS na Lx Factory. Eu puxo pelos meus. «Corre por aí, que o SIMPLEX, que se tornou um blog reputadamente honrado e esforçadamente socrático, acaba de publicar o primeiro fascículo do 25 de Abril de 1974. Aceita fotos de Valter Lemos ou na alternativa de José Miguel Júdice. Utilíssimo para postar a pregadores desenganados.»

UMA SUGESTÃO


O PSD continua a insistir na mole figura do seu vice-presidente Aguiar-Branco como porta-voz. O país não lhe liga, não sei se alguém já deu por isso. Por que não, pois, experimentar gente como Paulo Mota Pinto ou, mesmo, Paulo Rangel que, desde que ganhou a "sua" eleição, nunca mais foi avistado? É só uma sugestão.

29.7.09

UM PAÍS SEM CRÉDITO


Para além de continuar a empenhar a classe média, o PS propõe-se prosseguir alegremente com o TGV e com o aeroporto de Lisboa na Margem Sul. O PS não devia ignorar que tais "investimentos públicos", pela circunstância de incorporarem matéria importada em barda, vão engrossar o praticamente insustentável endividamento externo do país, o principal problema da próxima legislatura. Não são os cheques-bebé, os cheques-dentista, os casamentos, mais isto ou aquilo que vão contribuir para moderar o imoderado défice externo. Um país desacreditado - no duplo sentido do termo -, por mais TGV's e Magalhães que tenha, nunca deixará de ser um país desacreditado. É isso que o PS pretende?

DA NECEDADE


Uns valentões de uns quantos bloggers anónimos (e um ou outro assinado) julgam que ter estado numa sessão promovida pelo PS com alguns blogues corresponde a uma qualquer "rendição" a Sócrates. Nem vale a pena gastar cuspo com a pobre insinuação. Nem tão pouco com insultos pessoais. Talvez esses valentões pretendessem fazer o que os "populares" costumam fazer às portas e nas traseiras dos tribunais quando chegam os réus. Como um desses anónimos é magistrado, provavelmente enxergará melhor a imagem do que outros mais néscios. Pena é que permita assuadas primitivas à sua porta.

A CULTURA SEGUNDO PINTO RIBEIRO OU A "ANIMAÇÃO CULTURAL" DO PS


«O ministro ainda vegeta mentalmente nos tempos do Manifesto anti-Dantas, um dos textos polémicos mais estéreis, mais infecundos e mais mal escritos de toda a história da cultura portuguesa.»


O "SUMO"


«Para papalvos entenderem: por classe média baixa e desfavorecidos leia-se indigentes que nada terão para deduzir, porque nem sequer ganham para o gastar. Por ricos entenda-se classe média, os mesmos, os de sempre.» É, na realidade, o "sumo" do programa eleitoral do PS. Malhar mais e melhor na classe média. À dra. Ferreira Leite basta-lhe recordar isto dia sim dia não. Nem precisa de um "programa".

A EUROPA COR DE ROSA DA D.TERESA DE SOUSA


A D. Teresa de Sousa que debita no Público - e, por vezes, na Sic - sobre "temas internacionais", escreve que a Europa ainda se pode safar com Blair ou González à frente. Presumo que se refere (não a leio, só vi mesmo a frase solta) ao cargo de presidente da União previsto no funesto Tratado de Lisboa que, se Deus quiser, jamais conhecerá a luz do dia. Àqueles dois potentados políticos a D. Teresa podia juntar o nosso antigo pai da pátria, o dr. Soares. Apesar de ele não simpatizar com Blair (pelo menos dantes não gostava dele, mas quem aprecia Chávez por que é que não há-de gostar de um sonso risível como Blair?), creio que Soares se reveria na menção. Depois do ruído que tem andado a produzir contra o dr. Barroso, merecia a referência da D. Teresa, uma velha maoísta convertida ao pior europeísmo. Assim como assim, agora são todos socialistas. Como a D. Teresa.

COSTA, O HOMEM PRETEXTO


Ainda sobre o debate de Costa e Lopes. Foi fraco mas deu para perceber quem é que, dos dois, concorre efectivamente por e em Lisboa. Aliás, amanhã, na sua semanal conversa em família com Lobo Xavier e Pacheco Pereira, António Costa, o comentador político, deverá acrescentar mais uns pós com vista ao último trimestre do ano. Pelo andar da carruagem, Costa, durante os quinze dias que medeiam entre 27 de Setembro e 11 de Outubro vai ter de pensar em tudo menos em Lisboa. Lisboa, desde 2007, é apenas um pretexto na carreira um homem habituado a virar frangos, na bela expressão do Rodrigo. Qual é o lisboeta que, no seu perfeito juízo (descontando os "intelectuais" da "claque", o sr. Saramago, a troika Sampaio, Soares-pai e Soares-filho, o fadista do Carmo, o coerente "Zé" e a ainda mais coerente Roseta), vai entregar a Câmara a um homem de passagem? A um pretexto?

UM PROGRAMA BEBÉ


Para quem anda ávido de "programas" - ainda não perceberam que, depois de 27 de Stembro, os "programas" não vão servir para nada - o PS preenche hoje os requisitos mínimos apresentando, pela voz do admirável líder, um. Todavia, o bebezão Tiago Silveira, porta-voz oficial do partido, já anunciou uma "medida" do referido "programa". Trata-se de um cheque-bebé (havia o cheque-dentista) no valor de duzentos euros para incentivar a natalidade, por um lado, e para incutir "sentido de responsabilidade" nos ditos bebés à medida que vão crescendo, por outro, dado que só aos dezoito anos poderão mexer no dinheiro. Explicado de viva voz pelo Tiaguinho é de decretar uma semana de riso nacional. Se isto é um "programa", bem podem ir limpando o rabiosque dos putativos bebés a ele.

PALAVRAS DE HOJE


«Eu sou a Ressureição e a Vida.» (João)

ELA MESMA


A dra. Manuela Ferreira Leite vai aparecer numa conferência promovida pelo "socrático" Diário Económico, dirigido por um rapaz, por coincidência, chamado António Costa. O tema, já anteriormente proposto ao primeiro-ministro em exercício, é "transformar Portugal". Os jazigos políticos estão atafulhados de criaturas que pretenderam "transformar Portugal". A última, aliás, está em funções há quatro anos. Só desejo que a presidente do PSD seja incisiva, enxuta e nada retórica. E, sobretudo, que não pretenda "transformar" nada como se fosse mágica. Basta ser ela mesma.

LISBOA BÁSICA

«Confesso que não fiquei minimamente esclarecido [com o debate Lopes-Costa]. E, não sei porquê, lembrei-me do eng. Fernando Santos e Castro, que foi presidente da edilidade entre 1970 e 1972 e que, há 40 anos, construiu o viaduto de Alcântara, sobre a linha do caminho de ferro Cais Sodré-Cascais. Era uma construção considerada provisória e por isso sem preocupações de beleza (ainda que a segurança estivesse garantida) mas servia uma necessidade fundamental: a passagem de veículos do lado da Estação Marítima de Alcântara para o lado da Avenida da Índia. Era intenção do presidente substituí-la mais tarde por outra estrutura, essa de carácter definitivo, que conjugasse a utilidade com a a estética. Entretanto Santos e Castro foi nomeado governador-geral de Angola. Outros presidentes lhe sucederam. O viaduto, esse ainda lá está.»

28.7.09

«QUE É O HOMEM SENÃO UMA ALMA PEQUENINA DENTRO DE UM CADÁVER?»


«Ninguém fica incólume após ter mergulhado a fundo neste livro, dominado pela figura do Cônsul afogado em mescal enquanto relia a derradeira carta da única mulher que alguma vez amou nesse México povoado de luzes e sombras em Dia de Finados.» O Pedro Correia sobre Malcolm Lowry e Under the Volcano. Lido e relido várias vezes e em diferentes circunstâncias. Nem precisava ter escrito mais nada. Faz cem anos que nasceu. Ainda bem que andou por cá. Mal mas andou.

GRANDEZA



Bellini: La Sonnambula. Maria Callas. Paris, 1965. Georges Prêtre.

PARA A PRÓXIMA


Que grande treta de debate entre António Costa e Pedro Santana Lopes sobre Lisboa nas Sic's. Depois admirem-se da abstenção. Clara de Sousa não existe como locutora ou moderadora política. E os candidatos já conheceram melhores dias na televisão. Demasiada intendência, demasiado passado. Deve ser do calor. Fica para a próxima.

O IMPERADOR E A DONZELA


Para entreter os veraneantes, criou-se uma "polémica" Joana Amaral Dias. Ao contrário de Medeiros Ferreira que augura um brilhante futuro a esta vaidosa militante da esquerda, dá-me ideia que a seráfica senhora - convenientemente desaparecida em parte incerta - meteu o pezinho na poça. Ela e quem, pelo PS, falou com ela qualquer coisa misteriosa. Esta técnica de sedução serôdia destes esquerdinos não conduz o PS a lado algum. Nem Joana Amaral Dias que depois de devidamente humilhada pelo dr. Louçã, através de uma "purga" que praticamente a silenciou durante três pesados anos, quer dar-se ademanes de indispensável aos olhos da nebulosa esquerda portuguesa de que Sócrates se reclama imperador "democrático". Estão bem uns para os outros.

"RIGOR" E "CREDIBILIDADE"


Há para aí uns três anos, ainda era ministro de várias pastas, António Costa afirmava que o governo tinha vencido "todos os testes de credibilidade" em matéria da alegada "reforma da administração pública". O mesmo Costa, porém, agora na pele de presidente da Câmara de Lisboa, falhou logo o primeiro como recandidato autárquico. Meteu-se numa trapalhada qualquer com vídeos de propaganda, rasurando uma parte dessa propaganda em que acabava por dar razão, de viva voz, a Santana Lopes. É neste estado deficitário de credibilidade que Costa enfrenta mais logo um debate na SIC com Lopes. Só que isso é o menos. O trânsito caótico, a paralisia da cidade, a destruição metódica do acesso ao Tejo, a começar na Praça do Comércio, o "acordo coligatório" com Roseta, o "Zé" irresponsável, etc., etc., em suma, o nada do seu precário mandato à frente da capital, merecem o escrutínio de Santana Lopes. Era "rigor", não era?

DOR DE PINHO

O missing in action Manuel Pinho, demitido por causa de uma sms poderosa (para recorrer a um termo caro a José Sócrates), foi homenageado em Ovar por uns quantos empresários. O homem, apesar das férias, continua magoado. Pinho não teve tempo para aprender que, em política, não há gratidão. A maneira como se referiu à política portuguesa - leia-se, à forma como foi removido por causa de uns corninhos mostrados a um deputado num momento infeliz - evidenciou uma pessoa ressentida. E não pareceu que fosse com a oposição.

27.7.09

PORREIRO, PÁ


Afinal, parece que houve um "choque tecnológico" ao contrário que impediu a transmissão do encontro de Sócrates com uns quantos bloggers. Resumindo e concluindo, o secretário-geral do PS e primeiro-ministro mostrou por que é que é um líder admirável ou um admirável líder, conforme as preferências. Aguentou estoicamente quatro horas de perguntas/respostas, desde as mais preparadas pelos "camaradas" até às inesperadas dos três ou quatro bloggers minoritários ditos da direita. Começou por dizer que «dizem que os blogues dizem mal de mim e eu queria confirmar.» Pela amostra, não pôde confirmar nada. Fiquei a saber que «acredita na transparência como condição da liberdade» e que é um adepto do "realismo" e do "pragmatismo". Falam-lhe de "promessas", ele maça-se levemente e às "promessas" prefere "propostas". Não gosta de "acusações" nem de "insultos". Também nada disso ocorreu. Estávamos todos muito cordatos uns com os outros, salvo duas jovens promessas do PS que esperavam "mais" da "direita" presente e que levaram o trabalho feito de casa. O Público não escapou ao olho do líder numa resposta. «Vocês são todos pessoas adultas para acreditarem em tudo o que vem no Público.» As ditas minorias, agora alegremente "quotizadas" nas listas do PS, também não. «Eu tenho 51 anos e tenho vergonha da forma como a minha geração tratou os homossexuais.» Também asseverou que «não tem nenhum complexo de esquerda» quando lhe perguntei o que é que tinha a oferecer ao eleitorado do centro e da direita que lhe deu a maioria absoluta em 2005. "Imagine que eu estou indeciso entre si, o incumbente, e uma outra eventual futura incumbente, senhor primeiro-ministro. Convença-me." Deu-me três exemplos. Segurança social e idade legal da reforma igual para todos, abertura de todas as escolas básicas até às 17.30 e a educação. Menos professores, mais alunos, mais sucesso escolar, menos insucesso escolar entre 2005 e 2009. Fiquei, naturalmente, esclarecido. Sobre a cultura, Sócrates acha que a «animação cultural do país é necessária para o nosso desenvolvimento» e que «o investimento cultural é um investimento na sociedade através dos seus agentes culturais.» E, sobretudo, convém «apostar nas cidades porque têm mais oferta cultural.» Até referiu um termo maldito do PREC, a "dinamização cultural". É o que quer fazer presumivelmente já sem Pinto Ribeiro, "dinamização cultural". Não acompanha a visão "orçamentalista" (leia-se, de reforço da dotação do MC) sem "objectivos". Essa, aliás, não é a "visão" dele e que era a "tónica" de um governo "a que ele pertenceu". Estava, sem falar, a falar de Carrilho. Depois veio uma "revelação". «Não sou metódico, sou pouco apaixonado pelo cálculo.» E, claro, «tenho um optimismo histórico.» Daí acreditar em que «há muitas políticas que se fazem sem dinheiro.» Não faltaram os carros eléctricos, o "cluster industrial", a "revolução tecnológica em curso" e, em relação à segurança do Magalhães, a necessidade do «desenvolvimento da coisa.» Nesta altura, cerca das 20.30, Sócrates já tinha mergulhado de cabeça na sua doce fantasia. «Não fazer investimento público é imoral.» Lá lhe foi puxando o pé para o TGV que, imagina, nos retirará miraculosamente da periferia. O Paulo Querido já não me deixou perguntar ao primeiro-ministro se fazia ideia de quantos milhões a mais de endividamento externo tinham crescido naquelas agradáveis quatro horas de amena cavaqueira. Cá fora, e antes de entrar no carro, confessou à rapaziada da "direita" que só foi uma vez na vida a uma manifestação. Contra a guerra do Iraque. De resto foi porreiro, pá. Boa noite e boa sorte.

SÓCRATES BLOGOSFÉRICO

Passe a publicidade, o encontro de José Sócrates com bloggers pode ser visto aqui. E, muito provavelmente, em blogues como o 31 da Armada. O comentário fica para depois, com calma. Quanto ao resto, nomeadamente certos comentários imbecis, make no mistake.

UMA LEITURA E UMA AMIGA


A Joana deu-se ao trabalho de ler, com manifesta minúcia, o livro ali à direita. Que eu desse por isso, deste microcosmo, foi a única. A Joana sustenta uma presença discreta e quase silenciosa nesta nossa blogosfera tão tagarela e superficial. E, depois, tem sempre uma "vista" invejável para o Tejo. É uma amiga que isto me trouxe para compensar, de alguma forma, os que isto tem levado. Os amigos são os que nos aturam à medida que o círculo se fecha sobre si mesmo. A Joana é uma delas. Ela sabe (como sabe) que não tenho nada para a troca.



«Um olhar muito próprio, impiedoso e cortante, e de um apurado sentido crítico que o impede de ceder a qualquer tipo de complacência ou, usando as suas palavras “respeitinho”, seja por pessoas ou por instituições (1). Desmonta impiedosa e lucidamente as intenções e os mecanismos decisórios (2), denuncia os falsos ídolos (3) e denuncia pressões políticas de vários tipos a vários organismos ou instituições (4). O retrato traçado ao longo das páginas do livro destes últimos anos é um retrato desencantado de um país errático que não se encontra nem se sabe. JG não esconde o seu desencanto pelo regime que sustenta a nossa democracia, parece que o considera esgotado, ou pelo menos exausto (5) e esse desencanto e desalento muitas vezes surgem como premonitórios pois é apartir do presente que JG projecta no futuro (6) um insucesso, uma derrota ou ainda mais um impasse, que infelizmente se confirmaram.Todas estas críticas políticas assentam numa visão também ela desencantada do mundo actual e JG é especialmente perspicaz nos retratos “psico-sociais” - uso o plural pois JG sabe distinguir os diferentes tipos que fazem a aparentemente colorida e heterogénea sociedade (no fundo tão igual) - com os seus tiques comportamentais e as suas modas, bem como na crítica de costumes (7). No entanto, o que dá substância - matéria e alma – ao seu olhar crítico e desencantado sobre o nosso país pequenino e sobre a sociedade actual é a fé e a defesa aguerrida dos valores que considera básicos na civilização ocidental: o primado do Homem, a liberdade e a defesa da vida. São estes os pilares em que assenta o seu olhar e que impede os seus textos de se tornem estéreis, frios e (des)almados como se fossem meros exercícios de deprimida retórica política e social. JG acredita na liberdade que se conquista com o saber e com o pensar, e os seus textos são sempre estímulos e provocações, nem sempre simpáticas, nem sempre de agradável leitura, nem sempre óbvias a que se aprenda e se pense, quanto mais não seja para dele discordar. (Notas:(1) pág.126 “Emporio”, pág. 135 “Querido Líder”, ...(2) pág. 148 “Os ‘Testes de Credibilidade’”, ...(3) pág. 200 “Wotan/Sócrates”, pág. 225 “o Ministro TOYS R US”, pág. 286 “O Mundo Segundo Sócrates”, pág. 265 “AGITROP”, pág. 400 “Soares e os Males da Existência”, ...(4) Pág. 243 “A Senhora Diectora”, pág. 218 “Inala sem Engolir”, ...(5) Pág. 290 “Pensar Nisto”, ...(6) Pág. 125 “O Homem Médio”, pág. 143 “Sócrates e o Lugar-Comum”, ...(7) Pág. 231 “Os Novos Monstros”, pág. 236 “Sampaio, o Outro”)»

PACIÊNCIA E PROPOSTAS

No Jamais.

26.7.09

UM ENCONTRO


José Sócrates disponibilizou-se para participar, amanhã, dia 27 de Julho, pelas 17.30, numa blogo-conferência aberta aos social media e à comunicação social que decorrerá em Lisboa com provável transmissão em directo via Sapo. É uma ideia do deputado do PS Jorge Seguro depois desenvolvida pelo Paulo Querido (que modera) e cada um dos participantes terá direito a uma pergunta ao secretário-geral do PS e primeiro-ministro. Não posso deixar - até porque serei dos mais insuspeitos bloggers participantes - de elogiar a iniciativa e, naturalmente, Sócrates já que, como escreveu o Paulo Querido no mail que me enviou, «é um dos principais candidatos a aceitar expor-se num ambiente não filtrado e com maus exemplos no passado, reconhecendo que esse ambiente merece a atenção.» É a falar, como adultos, que nos entendemos. E a escrever. Não há aqui, minha, outra ambição.

NÃO TEM RAZÃO?

A "intelectualidade" - vulgo Clac - que se anda a saracotear ao lado de António Costa, em Lisboa, não dá muita importância a assuntos de dinheiro. É mais "ideias". Aliás, Alberto Gonçalves, no DN, resume bem a coisa. «Os "intelectuais" dos CLAC deixam a desejar em intelectualidade e, ao serem apresentados seriamente enquanto tal, são um apurado retrato do atraso pátrio. E só.» Quanto ao próprio Costa, verifica-se que a propaganda não bate certo com o candidato-presidente e o candidato-presidente não bate certo com a propaganda. A claque, se puder, que dê uma ajudinha. Em verso ou "ponto cruz".

LENDO OUTROS OU DA MORTE E DA TRANSFIGURAÇÃO







1. A Cultura de Sócrates vista pelos "seus" a propósito de um "Museu da Viagem". «O problema não são os museus. É a sua multiplicação, que custa dinheiro, fazendo com que Lisboa não disponha de um único que possa medir-se com os seus congéneres de Madrid, Veneza, Roma, Paris, Londres e Nova Iorque. O episódio caricato da pretendida e falhada extensão do Hermitage de São Petersburgo foi um bom exemplo da leviandade com que se gerem os dinheiros públicos.» (E. Pitta) Ou Leonel Moura, porventura a pensar nele: «Imagino que o Ministro da Cultura se refira à navegação na Internet, porque da tecla dos grandes feitos do antigamente que não consegue passar dos Descobrimentos, estamos todos fartos.(...) O Pavilhão de Portugal devia transformar-se num centro de experimentação artística, um laboratório de práticas avançadas, um lugar de encontro das artes e das ciências.Esse sim seria um projecto mobilizador.»
2. Por que é que também embirro com o ponto de exclamação. «O ponto de exclamação é um excesso de ruído que não acorda ninguém, uma espécie de martelo pneumático colocado no final de uma frase.» (F.J. Viegas)
3. Joaninha voa mas voa onde e quando quer. «Agora alguém no PS pensou ter chegado a hora de lhe dar a escolher entre manter-se no BE sem cargos ou entrar nas listas de deputados por aquele partido, como independente, em lugar francamente elegível. Declinou. Visto assim ninguém fica mal na fotografia. Para quê então ataques e desmentidos por parte daqueles que se não deram conta de estarem perante uma rara e forte personalidade política?» (Medeiros Ferreira)
4. Miguel Vale de Almeida ou a perda da inocência aos cinquenta. «
Há formas de prisão, reclusão, fechamento muito piores do que o destas fadas: trata-se de alguém aprisionado a uma abstrusa necessidade de se justificar. » (C. Vidal)

5. João Galamba, para grande lástima da sua "direita amiguinha", pode não ser candidato. «Disseram-me que João Galamba pode não ser candidato a deputado. Era a informação que tinha. Se não for, é pena.» (P.P. Mascarenhas)
6. O "ciclo" em vigor. «Estamos a transmitir tragédia em ritmo revisteiro que pouco tem a ver com a "tempestade perfeita". Malhas que outros impérios tecem.» (J. A. Maltez)
7. Só Deus escreve por linhas tortas porque é um direito próprio. Seu. «A nossa noção de causalidade é macroscópica e “sentida”. No nosso universo sensível o tempo e as coisas são diferentes - as coisas têm muito mais tempo que nós - e a criação ex-nihilo ou é obra de Deus ou da magia.» (J.P. Pereira)
8. John Berryman. Para sossegar o João Galamba. «O mundo está gradualmente a tornar-se um sítio onde já não me apetece estar.»

Clip: Richard Strauss, Poema Sinfónico "Tod und Verklärung". Berliner Philarmoniker. Herbert von Karajan

POR AMOR DE DEUS


Há qualquer coisa a unir estas duas criaturas - Alberto João Jardim e Maria de Lurdes Rodrigues - sem que ambas suspeitem disso. A ministra foi "anarca" e agora acha que as políticas são mais relevantes do que as pessoas. Ainda acaba em domadora de leões por efeitos hipnotizadores. E Jardim continua "anarca" já que pretende "lutar para acabar com o fascismo". Por amor de Deus.

SEM DILEMAS HAMLETIANOS


Tanta coisa, tanta coisa, e afinal, João, tudo se resume a um lugar na lista de candidatos a deputados do PS. Estamos sempre a aprender com o velhote. «And therefore as a stranger give it welcome./There are more things in heaven and earth, Horatio,/Than are dreamt of in your philosophy.»

UM LIVRO


No dia seguinte a ter assistido a esta peça, a actriz Ana Margarida Pereira ("Jean Fordham") sofreu uma paragem cardíaca e foi internada no Santa Maria. A Ana Margarida tem vinte e seis anos e vida e talento pela frente. A peça foi interrompida. Do fundo do coração (e eu só vi a Ana Margarida naquela noite), desejo que recupere depressa. Quem não assistiu à peça, pode lê-la numa tradução de Pedro Gorman para a Quimera e TNDMII. «Graças a Deus que não sabemos ver o futuro. Nunca poríamos os pés fora da cama.»

Foto: Tracy Letts, autor de Agosto em Osage

25.7.09

A ENTIDADE E O REGIME

Há dias foi divulgada num canal de televisão uma sondagem que dava António Costa cerca de nove pontos acima de Santana Lopes, em Lisboa. Hoje leio que «na manhã seguinte, [PSL pediu] a uma pessoa que trabalha [consigo] para ir logo à Entidade Reguladora para a Comunicação Social, onde a Lei manda fazer o depósito prévio à divulgação pública de cada sondagem. Pediu para consultar e foi negado, com a resposta de que a ERC precisava de dois dias para analisar. Mas já fora divulgada na véspera, 45 minutos depois de entrar na ERC!... Como é isto possível?» É. E é como me elucidou um amigo por mail. «Não sei se reparou que a ERC agora recomenda à RTP que dê mais visibilidade ao PSD nos noticiários (vem no Público de hoje). (...). Agora, que se aproximam eleições e as sondagens não favorecem o partido do poder actual, já se preparam para formar uma nova maioria que agrade ao talvez próximo poder. Esta gente mete nojo.»

NÃO TEM RAZÃO?

GOSTO...

Destes cartaz(es) alternativo(s).

DESFOCADO


Pinto Ribeiro, a pessoa que está a fazer de ministro da Cultura, apareceu numa entrevista. Mais uma. Cheio de si mesmo e de "contentamento" (pela triste figura que fez ?), Ribeiro ameaçou-nos com mais um museu da Viagem, debaixo da pala do arquitecto Siza, uma coisa que, segundo ele, vai ser "extraordinária". Quem vier depois dele que pague e acabe. Quanto ao que lhe competia ter feito - "mais com menos dinheiro" - nada. É o retrato de um homem permanentemente desfocado num lugar que não lhe estava destinado. As coisas que não disse, por exemplo, sobre o São Carlos (e o que não fez revelando a sua impotência perante um director artístico manifestamente incompetente "herdado" do anterior secretário de Estado e uma gestão errada que até queria "fundir-se" com o D. Maria...). Não vê, felizmente, a hora de regressar ao seu gabinete de advocacia de onde nunca devia ter saído.

CONTRA A "RENOVAÇÃO NA CONTINUIDADE"

Há pouco vi Sócrates no Altis sentado ao lado do "ideólogo" Vitorino a anunciar o seu "programa" em "três pontos", estilo "renovação na continuidade" do funesto Marcello Caetano dos últimos dias. É para o poupar a essa pequena tragédia que também existe este blogue. Já lá deixei isto, isto e mais isto.

24.7.09

POR QUE


... é que eu gosto dos Açores. Entre outros motivos, evidentemente. Triviais como o mar do Populo, da Caloura ou de Angra.

A CAUSA DELES

Depois de Vital, Ana Gomes ou Luís Nazaré, o circunspecto membro da direcção benfiquista do sr. Vieira, só lá faltava o ex-profeta Correia de Campos, emigrado em Bruxelas como os dois primeiros. Gomes ainda anda por cá por causa de Sintra. A partir de 11 de Outubro já estará fora a tempo inteiro. Graças a Deus e ao amigo benfiquista do Nazaré.

É MENTIRA?


Não quero que falte nada ao João Galamba. Aliás, fico sempre embevecido quando pressinto que a inteligência emotiva se sobrepõe a tudo o mais. O seu recente "psismo", não passa, aliás, disso. Outro dia comparou-me à melancolia eslava - feroz, fria, silenciosa e aparentemente indiferente - de uma famosa personagem de Dostoievsky. Até me babei. Agora é o Doutor Salazar, a três dias do aniversário do seu passamento. O João não deve ter lido bem isto. «Salazar apareceu depois da ditadura da República - contra ela -, ficou à frente da sua durante quase meio século, gerou toda a oposição ao Estado Novo, desde o PC até à oposição "burguesa" - a do exílio e a das prisões - e "fermentou" as Forças Armadas da "guerra colonial" que o derrubaram depois de morto. A diferença entre Salazar e as "elites" ditas democráticas é que, sendo todos manhosos, a manha de Salazar não lhe "puxava" para a trafulhice e para a cupidez insaciável. O século XX, português e político, foi o século de Salazar. E a estupidez revolucionária de apagar vestígios em pontes, estátuas e ruas não rasurou a coisa.» É mentira?

NEM SEMPRE

A Fernanda Câncio é um lugar estranho.

NÃO CONSEGUIMOS


Em relação a Junho de 2008, o número de desempregados cresceu em mais de cem mil no mês passado. Faltam só cinquenta mil para os famosos cento e cinquenta mil. Só que, tragicamente, é ao contrário. Não conseguimos.

23.7.09

AMANHÃ NAS "BANCAS"


Na "explicação" do livro Portugal dos Pequeninos escrevi que «no desalinho da sua contingência, um blogue pode ser mais fidedigno do que uma notícia.» E acrescentei que «é, seguramente, mais livre pelo que deve ser, num certo sentido, mais responsável.» Porquê? Porque «à impunidade de certa comunicação social não se pode contrapor com mais impunidade a coberto do anonimato.» O que serve para este blogue, serve para todos os blogues. Amanhã estará "nas bancas" - representadas pelos computadores e pelos aparelhos equiparados que andam no bolso de alguns - um novo blogue com um propósito claro, sempre com assinatura por baixo. Recusar, a 27 de Setembro próximo, a continuidade da fantasia representada pelo actual primeiro-ministro. Tal significa apoiar outra solução ao contrário do que sugerem alguns tagarelas, anónimos e não anónimos, da blogosfera alinhada respeitosamente atrás de Sócrates e que anteciparam, com o ruído habitual, o lançamento do novo blogue. Desde ontem à noite, o primeiro-ministro (que já era admirável segundo os seus epígonos, dos sofisticados aos primitivos) passou a ser um homem providencial. Nem a Salazar ocorreu alguma vez a brilhante ideia de que ainda estava para nascer quem fizesse melhor do que ele. Soubemos pelo próprio que, afinal, já tinha nascido. Em Vilar de Maçada, há cerca de meio século. É também este providencialismo de opereta - feito apenas de som, fúria e imagens - que é preciso derrotar a 27 de Setembro. A isto, os autores do blogue respondem com o apoio - sereno, crítico, livre e, como no meu caso, independente - a Manuela Ferreira Leite. Em democracia, ganha-se e perde-se. Nestes últimos quatro anos perdeu-se muito da débil qualidade de vida democrática do país. Nós queremos simplesmente que Manuela Ferreira Leite, sem demagogias nem retóricas fáceis, a recupere.

UMA NOTÍCIA (FINALMENTE) AGRADÁVEL




Aqui.


Mozart: Piano Concerto No. 9 "Jeunehomme", in E flat major, K. 271 (1st mov). Mitsuko Uchida.Mozarteum Orchestra. Jeffrey Tate. Saltzburg, 1989

ALEGRE


Com pompa e circunstância, dignas da sua vaidosa figura, Manuel Alegre deixa o Parlamento. Bajulado pelo Bloco, encarado com pragmáticas reticências pelo PC e moderamente aturado pelo PS de Sócrates, Alegre imagina para si mesmo um imenso desígnio. Fora o congresso da Aula Magna, o primeiro da seita depois da revolução, e a humilhação recente que inflingiu a Soares, Alegre não serviu politicamente para mais nada. Espera, a partir de agora, condicionar o seu partido, e a esquerda em geral, a partir do limbo. Se isso acontecer, significa que temos a esquerda mais estúpida da Europa. Nada de que eu já não desconfiasse.

LINO DESCONTROLADO

O governo em funções inventou uma coisa (entre milhares delas, sobretudo virtuais) chamada "controlador financeiro". Supostamente o "controlador financeiro" seria uma espécie de delegado das Finanças em cada ministério destinado a acompanhar a execução orçamental. Alguns desistiram da função a meio do caminho. A solidão e a irrelevância não são boas conselheiras. O "controlador" do eng. º Mário Lino advertiu-o da asneira que representava, para o Estado, o negócio com a Liscont da Mota-Engil sobre o terminal de Alcântara. Lino, que só ouve (e mal) os seus assessores de imprensa e de blogosfera, ignorou o esforçado "controlador", na circunstância uma "controladora" e insuspeita economista. Só mesmo as eleições poderão "controlar" Lino, removendo-o para o justo anonimato empresarial de onde nunca devia ter saído.

IDIOTEX


Parece que alguns dos pseudo-cómicos oficiais do regime "parodiaram" Ricardo Pais (o encenador e antigo director do Teatro S. João do Porto) no Largo do São Carlos, comparando-o a Júlio Dantas. Teriam usado o famoso "manifesto" de Almada Negreiros para "gozar" Pais. Apesar de não entender o cabimento de uma macacada deste género em frente (e organizada) pela OPART que, em má hora, gere o único teatro lírico nacional, penso que atingimos um ponto de abastardamento nacional (basta atentar num 1º ministro que afirma, sem se rir, que ainda está para nascer um 1º ministro capaz de fazer melhor do que ele...) em que qualquer palhaçada dita "cultural" será sempre um mal menor. Sobretudo julgo que, a bem da "avaliação" do "respeitável público", nada deve ser proibido ou excluído. O "público", aliás, gosta de se ver (bem) representado. Mas regressemos a Dantas porque Pais deixou de me interessar há uns anos. O melhor do artigo da Helena Matos no Público nem sequer é a malfadada cronologia do improvável "socratismo" de que os referidos cómicos "idiotex" narram exemplarmente o esplendor. O melhor - por ilustrar o contrário destes tempos de gente que possui todas as qualidades dos cães menos a lealdade - é o que a Helena debita sobre Dantas. Até porque o "pim" de Almada liquidou-o aos olhos da parola intelectualidade indígena. E não merecia.


«Não me interessam muito as razões que levaram estes actores a estabelecer esse paralelo entre Júlio Dantas e Ricardo Pais. O que eu queria mesmo era um pretexto para falar do Dantas e sobretudo desmanchar aquele sorrisinho consensual, género "tão moderninho que eu sou!", que nasce quando o nome do dito Dantas é pronunciado. Durante anos o que conheci de Júlio Dantas foi o que dele escreveu Almada Negreiros. Um trabalho sobre o primeiro filme sonoro português, A Severa, fez-me interessar pela figura do tão ridicularizado Dantas. Não foram as excelentes letras dos fados que me levaram a considerar que talvez o Dantas não fosse apenas o boneco que dele fizera Almada. Foram sim umas cartas. Mais propriamente as cartas que escreveu a um preso de seu nome José Carlos Amador Rebelo. Até ao dia 6 de Fevereiro de 1931, Amador Rebelo era uma figura conhecida nesse meio cultural que anunciava ir revolucionar e organizar o cinema português em moldes modernos. O que o levara a esse mundo foi o seu talento não para o cinema mas sim para arranjar dinheiro. Quando Leitão de Barros avança para a realização do primeiro filme sonoro português, a Sociedade Universal de Super Filmes, produtora da fita, procura Amador Rebelo, que garante boa parte do capital de A Severa. Acontece que desgraçadamente o dinheiro não era de Amador Rebelo mas sim do BNU, onde Amador Rebelo tinha o invejado cargo de inspector-geral e de onde desviara o dinheiro para financiar A Severa. Às onze da noite do dia 6 de Fevereiro de 1931, João Ulrich, então director do BNU, entrou no Torel para apresentar queixa por desfalque contra Amador Rebelo. Desde esse momento a grande preocupação da gente moderna da cultura e do cinema foi desvincular-se desse homem a quem até há uns dias enviavam telegramas pedindo dinheiro para fazerem a sua obra: "A escola Alves Reis, em cuja árvore genealógica entronca José Amador Rebelo, seu jovem e aproveitado discípulo deve ser expropriada e arrasada" - lê-se na revista Cinéfilo escassos dias depois da denúncia do BNU. Amador Rebelo seria preso e julgado. E é aí, na cadeia, que entra o nome de Júlio Dantas, pois, ao contrário de outros, fossem eles cineastas, escritores ou artistas muito mais modernos, revolucionários e tidos como menos oficiosos, Júlio Dantas não se esquece de Amador Rebelo e escreve-lhe para a cadeia procurando encorajá-lo. Certamente efeminado e postiço como lhe chamou Almada, vaidoso e egocêntrico como o descreveu pitorescamente Marcelo Caetano, a verdade é que Júlio Dantas é também o intelectual que desempenhou com qualidade os cargos que teve e o homem que não fez de conta que não conhecia um amigo e que, nos anos 20, se opôs ao grupo moderníssimo de radicais que pretendia retirar duma livraria do Chiado exemplares das Canções de António Botto. Júlio Dantas tem representado convenientemente o papel do intelectual em que literal e historicamente falando é moderno malhar mas a vida (e no caso de Júlio Dantas a própria morte) e a sua teia de compromissos, fraquezas, glórias e princípios é sempre bem mais complexa do que as certezas inscritas nas frases dramaticamente sonoras e frequentemente belas dos manifestos.»

UM HOMEM DE «MÉTIER» OU DEZ ANOS DE SÓCRATES



Ler a crónica do José Pacheco Pereira na Sábado em linha. «Aquilo que parecia em 1999 uma ode ao desenvolvimento baseado no futebol - em Aveiro a “maior zona de requalificação” do país, os estádios “muito sofisticados” “com três estúdios para televisão pelo menos“, “criar novas centralidades”, “novas oportunidades” etc., etc. - e que se repetiu a propósito de muita coisa, dos gadgets como o “Magalhães” a falhanços como as Cidades Digitais e a Via CTT, nos anos da maioria absoluta até desfalecer em Junho de 2009, hoje parece muito frágil. Quando o ouvíamos em 2005, 2006, 2007, 2008, a falar da “revolução” que os seus projectos de desenvolvimento iriam trazer ao país, deveríamos ter tido mais memória do passado deste governante, mas falhámos no escrutínio do que já então era possível ter e que se devia ter. Sócrates vai falar do mesmo modo na sua campanha eleitoral porque ele não sabe fazer de outra maneira. É por isso que é bom voltar a estes vídeos com dez anos para o perceber melhor.»

Nas inesquecíveis palavras do próprio - do "verdadeiro artista - ontem no Porto, ainda está para nascer um primeiro-ministro como ele. Duvidam?

22.7.09

O "ÍMPETO"


Cada vez que ouço falar em "ímpeto reformista" do governo Sócrates (ou em "proactividade"), sofro ataques de riso de proporções bíblicas. Três heróis do liberalismo português contemporâneo, respectivamente os drs. Joaquim Goes, António Carrapatoso e Rui Ramos "balançam" o executivo à conta do seu inefável "Compromisso Portugal", na Sic-Notícias, com o pequeno Ferreira dos "negócios". Apesar dos elogios ao mencionado "ímpeto", estes nossas amiguinhos - sempre, como salienta Carrapatoso, com o credo da "libertação da sociedade civil" na boca - deixaram de conceder o benefício da dúvida ao ex-admirável líder. Nunca é de mais recordar em que consiste esta coisa do "Compromisso". Foi criado em 2004 ainda sob o regime de Barroso. No Convento do Beato, Carrapatoso e os seus amigos celebraram então a "sociedade civil" (não sabem, aliás, fazer outra coisa como se não vivessem no Portugal do seu "compromisso" o que quer dizer que não o conhecem) e aplaudiram a "veia reformista" do executivo de então. Fizeram o mesmo com o de Sócrates a quem "lançam" os mesmos lugares-comuns marcianos que dirigiram ao governo da defunta AD. Como aprecio o Rui Ramos (também ele funcionário público), custa-me vê-lo tão mal acompanhado. Que eu tivesse dado por isso, o "Compromisso Portugal" nunca foi a votos embora aprecie "influenciar" todos os governos a fim que sigam a sua maravilhosa cartilha "liberal". Há pessoas que passam quinze dias na Noruega, seis anos em Inglaterra ou três meses nos EUA e imaginam logo que a miserável west coast do fatal ministro dos corninhos pode dispensar a promiscuidade entre a "sociedade civil" e o Estado. Ou que a "libertação" daquela contra este nos retirará finalmente do abismo. Todavia Portugal não se muda "academicamente" e muito menos com "empreendedores" que falam de cátedra de "competitividade" mas que andam permanentemente pendurados às bordas do regime. Os pareceres da antiga Câmara Corporativa - o "Compromisso Portugal" da época do Doutor Salazar - eram intelectualmente mais honestos do que estas "intervenções" impetuosas das nossas pseudo-elites. Cansam.

COSTA, O COBRADOR SEM FRAQUE

À consideração do dr. Costa, o ainda presidente da CML. «A Câmara Municipal de Lisboa sabe que um dos grandes problemas que atravessa é a desertificação da cidade, porém, insiste em aplicar medidas para sangrar ainda mais os cidadãos que persistem em querer morar em Lisboa. O que é que estão à espera? Que nos mudemos também de Lisboa deixando esta cidade completamente deserta?»

OS "PROGRAMAS"


Andam para aí uns cromos a pedir "programas de governo". Critica-se Ferreira Leite por ainda não ter apresentado um. Por contraposição, os mesmo cromos acham que as sessões de propaganda do admirável líder (em que se limita a repetir os "sucessos" do seu maravilhoso governo e a prometer mais do mesmo, mesmo que seja do mesmo que não cumpriu) se equiparam a um "programa". Ora, como os mesmos cromos não cessam de papaguear, o cenário a sair das eleições de 27 de Setembro é de total imprevisibilidade. Nenhum português fora do circuito destes cromos quer saber de programas para nada. Sócrates apareceu muito arrumadinho de ideias em 2005 e vejam no que deu. Comparem os cartazes, as "novas fronteiras" e o powerpoint com os resultados. Nem sequer os cromos - muitos deles não passam de meros analfabetos funcionais - querem saber de programas para nada. Só querem ruído.

FRACASSOS ESPELHADOS


Abriu, como se fosse um ersatz da Expo 98 - e precisamente por ali - o "campus judiciário" de Lisboa. Teve direito a Sócrates, a Alberto Costa, a Supremo e a PGR. O venerando conselheiro Pinto Monteiro, aliás, não se poupou em elogios escolásticos à obra. Uns quantos juízes, porventura "em protesto", não apareceram. Dizem que a coisa não tem"dignidade". Com a desculpa da mudança, há já algum tempo que alguns dos agentes envolvidos na administração da justiça e na prossecução da acção penal não "apareciam" nos respectivos processos. Ainda por cima vêm aí as férias judiciais. Moral da história. Quer o SNS, quer a Justiça são "áreas" a evitar. Seja no "campo" ou num edifício. Sob a capa da modernidade espelhada, não progredimos no que interessa verdadeiramente às pessoas: saúde e justiça.

BASTONEX

Quando Marinho Pinto foi eleito bastonário dos advogados, pareceu-me que fazia bem à circunspecta Ordem um tipo pouco consensual e não enfeudado aos grandes escritórios cúmplices de qualquer poder político. Infelizmente, Marinho Pinto deu nisto e perdeu toda a credibilidade. Até a revista da Ordem parece mais uma "acção socialista" a juntar-se a tantas outras.

ACABAR O MUNDO


DÉCIMAS ALENTEJANAS

MOTE

Quero e não posso esquecer-te
Devo odiar-te mas não quero
Sinto perder-me ao perder-te
Não tenho esperança mas quero

VOLTAS

Invadiu-me esta paixão
Naquela tarde de Agosto
Quando olhei para o teu rosto
E tu olhaste pró chão
Disse-me o meu coração
Que tu me correspondeste
Bem sei que em casos destes
Pode haver mal entendido
Mas já não me sai do sentido
Quero e não posso esquecer-te

Cheguei a ter a sensação
Quando me olhavas com ternura
Eu navegava num mar de ventura
Com o vento de feição
Agora que vejo que não
Embora me custe dizer-te
Naufraguei ao conhecer-te
Nas ondas da amargura
E o meu mal já não tem cura
Sinto perder-me ao perder-te

(João Chouriço Paias, Póvoa)

Foto: Die Walküre, TNSC, 2007

A "LISTA" DO SENHOR CARREIRAS


Se esta "lista" corresponder à realidade final - e salvo a cabeça de lista e duas ou três excepções metidas lá pelo meio - é caso para dizer que o melhor que o PSD tem para oferecer a Lisboa é mesmo o Pedro Santana Lopes.

O HOMEM DAS FARTURAS


Desta vez, e depois dos carros eléctricos, o cheque-dentista. Ainda o vamos ver na feira da Luz, em Setembro, a oferecer farturas.

LINO, O CORRECTOR

Mário Lino "obrigou" o presidente do Tribunal de Contas a vir a público dizer que vai "corrigir" - na fase de "aprovação" do relatório do Tribunal sobre o terminal de contentores de Alcântara - em conformidade com as "observações" do ministro. Isto depois de o ministério ter zurzido fortemente no relatório acusando-o, na prática, de não passar de uma peça jornalística. Alguém (e algo) está mal nisto. Lino ou Guilherme de Oliveira Martins. Decidam-se.

DUAS COISAS

Algures, no livro acima, diz-se que nunca tanto tempo (e espaço) foi dado à ignorância sobretudo nas televisões. Já noutra ocasião, Santana Lopes tinha colocado a questão fundamental. «A verdade é que os portugueses vivem pior do que em 2005.» Em ambas as coisas, não tem razão?

21.7.09

ASSIM NÃO CONSEGUEM

No país do plano tecnológico, dos carros eléctricos, das plataformas, da energia eólica, do Magalhães, etc., etc. seis pessoas cegam depois de um tratamento oftalmológico realizado numa unidade do serviço nacional de saúde. Ana Jorge e o director clínico do hospital reagiram à coisa à saída de mais uma sessão das "novas fronteiras" do PS. Não haveria um lugar, por assim dizer, mais institucional para a "reacção"? Mais vale Ana Jorge dedicar-se apenas à gripe e o senhor doutor director clínico ao seu hospital. É para isso que lhes pagamos e não para andarem no folclore da propaganda partidária. Assim não conseguem.

REGIMENTEX


Estamos sempre a aprender. Então não é que a nova designação de jovens (e menos jovens) assessores de gabinetes ministeriais, de "serviços de informação" oficiais ou oficiosos e de dois ou três literatos regimentais juntos a militantes da seita é, para ser preciso, «homens e mulheres que travaram muitas lutas ao longo da vida, que decidiram apoiar o Partido Socialista nas próximas eleições legislativas»?
Foto: 5dias

OS "INTELECTUAIS" DO DR. COSTA


«Não há candidatura de esquerda em apuros que não amanheça, um dia, rodeada de um colorido grupinho de entusiastas prontos a mostrar que a intelligentsia nacional é um exclusivo de uns tantos. António Costa, como seria de esperar, não fugiu à regra: pouco depois de se recandidatar a Lisboa, lá recebeu o apoio de 120 (de acordo com as primeiras expectativas) ‘intelectuais’ de serviço que, mais do que se reflectirem no seu programa de acção, se sentem genuinamente incomodados com uma hipotética vitória de Pedro Santana Lopes. É verdade que Santana Lopes tem este condão: sempre que aparece – e ele aparece constantemente – consegue reunir, contra sim, um coro apocalíptico que anuncia, com inexcedível zelo, um incalculável número de catástrofes associadas à sua eleição. Em última análise, a intelligentsia portuguesa devia agradecer-lhe. Só ele, com o seu proverbial ‘mel’, consegue fazê-la sair da toca e exibir-se florescente nos mais extravagantes manifestos. Com ele, como dizia a canção, há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que se junta, com ar grave e circunspecto, no Martinho da Arcádia, à sombra de Fernando Pessoa, disposto a denunciar os perigos que se escondem por trás das suas imprevisíveis aventuras políticas. Sem ele, este saudável exercício estaria condenado ao fracasso e rastejaria, por aí, sem brilho, entregue às qualidades clandestinas do actual presidente da Câmara de Lisboa. Como é óbvio, António Costa, por si só, não mereceria as honras de um manifesto nem os cuidados especiais que lhe dedica a intelectualidade indígena. A sua permanência à frente da Câmara salda-se, por junto, num enorme ponto de interrogação. É difícil qualificar a sua obra porque, em última análise, a sua obra é um mistério mais ou menos impenetrável. Só agora, no momento da recandidatura, entre conversinhas amenas com Manuel Alegre, acordos ‘coligatórios’ com Helena Roseta e o apoio de dois ou três comunistas, se percebe que a sua força política não desapareceu e que se prepara, do fundo do seu apagado mandato, para suceder a José Sócrates, caso este perca as legislativas e ele consiga sobreviver às autárquicas. Mais do que Lisboa, sente-se na sua recandidatura o embrião de um PS que se prepara para os dias da sucessão. Talvez este quadro, este cheiro a pós qualquer coisa, anime alguns dos 120 signatários. Mas não anima, com certeza, quem perca algum tempo a ler os nomes que constituem este florido grupinho. Os intelectuais que nós temos! 120, para quem não saiba.»

Constança Cunha e Sá. Correio da Manhã

20.7.09

COLIGAÇÃO COM OS LISBOETAS

NADA A ACRESCENTAR

Isto vai ser penoso até Setembro. A quem comprar um carro eléctrico, ele "oferece" cinco mil euros. Ainda acaba nas tele-vendas de valor acrescentado. É o que dá quando já não há mais nada a acrescentar.

IDIOTEX

Uma das coisas a que me custa assistir é ver gente que estimo no papel de idiotas úteis. Lembram-me uma frase de Millor Fernandes. Mais vale passar por parvo estando calado do que abrir a boca e acabar com as dúvidas. Sobretudo quando não são, de todo, parvos.

AS COSTAS DE DA MOTA

O procurador da Mota queria correr com o seu inquiridor e, simultaneamente, queria que o processo disciplinar fosse tornado público. O conselho superior do MP chumbou, por unanimidade, a pretensão do velho amigo de Fátima Felgueiras. Da Mota pretendia dar ordens ao PGR. Sente as costas quentes. A culpa não é dele. É de quem lhe passou a mão por elas.

O MEU BANCO É DIFERENTE DO TEU


O actual presidente do BPP, Adão da Fonseca, escolhido pelo Banco do dr. Constâncio depois do desastre Rendeiro, queria (muito legitimamente) ir embora. Adão da Fonseca - e eu meço bem as palavras - é um homem sério. Se, no comunicado que enviou aos trabalhadores do banco, fala em insolvência do FEI (leia-se, falência do banco) e em "guerra civil" no sistema financeiro, é porque sabe do que é que está a falar. O governo e o dr. Constâncio - que "combinaram" com os grandes accionistas do banco, gente do regime, "aguentar" a coisa - sacudiram a água do capote. A dois meses de eleições, a última coisa que interessa trazer à colação é o BPP. O BPN, esse, está sempre presente através de "ex-ministros de Cavaco". Um, ignora-se depois das melhores atenções. O outro, nacionaliza-se. Nada acontece (ou não acontece) por acaso. Esta gente, para além de manhosa, é mesmo perigosa.

Foto: O banco da mais famosa passagem do tempo por ele.

A PALAVRA

«O negócio dos contentores de Alcântara, feito entre o Estado e o grupo Mota-Engil, seria um escândalo de dimensões nacionais em qualquer lugar do planeta com alguma vergonha na cara. Mas aqui, neste sítio pobre, deprimido, manhoso, cheio de larápios e cada vez mais mal frequentado, a coisa passa com umas tantas notícias, umas tantas declarações piedosas e uma idas à praia em tempo de Verão. A verdade é que a história cheirou mal desde o início. E não era só pelo facto de os indígenas ficarem separados do rio Tejo por uma barreira de contentores. Era desde logo pelo facto de um grupo privado ver uma concessão prorrogada por mais 27 anos, sem concurso público, e com cláusulas altamente lesivas para os cofres do Estado. É evidente também que a coisa da vista serviu para esconder os milhões de estavam em jogo, como o Tribunal de Contas do insuspeito socialista Oliveira Martins fez saber sem margens para dúvidas. O negócio é uma escandaleira imensa e só beneficia o grupo Mota-Engil. É evidente também que a sempre atenta Maria José Morgado fez saber logo que a coisa estava debaixo de olho e que o Ministério Público estava a preparar uma investigação. Outra coisa extraordinária quando um Tribunal de Contas vem dizer que o negócio em causa é, de facto, uma roubalheira dos dinheiros dos contribuintes e dá o nome aos bois. É claro que no meio desta desbunda socialista ninguém se lembrou de que este escândalo obrigava o ministro Lino a sair do Governo do senhor presidente do Conselho a alta velocidade. Mas não. Neste sítio um ministro pode ir para a rua por um par de cornos infantis ou por uma piada de mau gosto. As roubalheiras, os negócios escuros, os compadrios, a corrupção a céu aberto e o tráfico de influências, não só são tolerados como premiados nas urnas. É por isso que, mais do que nunca, era importante uma palavra de Cavaco Silva.»

António Ribeiro Ferreira, Correio da Manhã

OS IRMÃOS SOCRATOV


Enquanto o comentário e a opinião oficiosos vão para férias - que saudades do verão de 1978 em que a política não foi de férias por causa do primeiro governo dito de iniciativa presidencial (Nobre da Costa) depois da remoção de Soares II - esta rapaziada PS e PS friendly não vai. É uma espécie de "clac" nacional-blogosférica alargada a assessores do governo e às respectivas agências de comunicação, colectivas ou individuais, que quer repetir o PS de Sócrates em Setembro. Les beaux esprits se rencontrent.

Adenda da noite (do mundo): Kim-Jong-Il certamente não desdenharia subscrever esta pérola da intelligentsia que venera o admirável líder e os seus sequazes espalhados um pouco por toda a parte. «O Partido Socialista tem soluções, que podem não ser perfeitas, mas visam o bem-público e o interesse colectivo.» Com certeza. Têm sido, aliás, quatro anos de "bem-público" e de "interesse colectivo". Não estará na hora da intelligentsia ir para as "novas oportunidades" e aprender qualquer coisinha em meia-hora?

19.7.09

AO LARGO


Como é que um tipo destes - que remete para a "filosofia do festival", para "um espectáculo que não era para aquele espaço nem para aquele público” - pode "presidir" ao único teatro de ópera nacional? É com atitudes tolas e analfabetas como esta que querem "novos públicos" seja lá o que for isso dos "novos públicos"? Não há meio de os porem ao largo.
Adenda: (da leitora Vera Porto)
«É grave que este Festival, que até apresentou um coro infantil absolutamente desafinado, se permita insultar publicamente no espectáculo de 6ª-feira, dia 17, (programado por Diogo Infante), Ricardo Pais, ex-director do Teatro S. João, pela voz de Produções Fictícias (amigos do actual Min. da Cultura) e do actor Miguel Guilherme. Foi lido um Manifesto anti-Pais a partir do Manifesto anti-Dantas, de Almada Negreiros, substituindo o nome de Júlio Dantas, pelo de Ricardo Pais. Primeiro é um atentado ao texto de Almada. Segundo, como podem as instituições de Estado que promovem o Festival (S. Carlos e D. Maria II), apontarem o dedo e insultarem aquele que foi até recentemente director dum outro Teatro Nacional? »

DOIS "LIBERAIS" TRISTES


Agostinho era um pessimista relativamente à natureza humana. Ratzinger também desconfia dela, como lhe compete. Para mim, essa linha separadora - entre o optimismo e o pessimismo - é intelectualmente mais estimulante do que as tretas esquerda/direita ou liberal/mais ou menos Estado. É a que vale, embora Alain tenha escrito que quem pensa assim é de direita. Não faz mal. O Henrique Raposo define-se no livro da foto como um "liberal triste". Ainda tem a ilusão de que, um dia, esta pátria será "liberal". Isso é bom enquanto utopia e aí nos afastamos. De resto, um "liberal triste" como o Henrique está a meio caminho entre o optimismo e o pessimismo. Caso contrário, confundir-se-ia com alguns liberais de opereta, cúmplices do regime e do "sistema", que se vendem por um prato de lentilhas e que sobrevivem, contentinhos, atascados na sua pobre retórica livresca julgando que vivem onde verdadeiramente não vivem. Em certo sentido, o Henrique está mais do meu lado do que ele imagina. Porque a cidade dos homens não faz qualquer sentido se não for, também, cidade de Deus. É um pouco como a fé que se dirige exclusivamente à razão humana mesmo que esta a rejeite, como tu. Levei anos, uns porventura perdidos (a maioria), outros porventura ganhos na cidade dos homens até aprender isso. Lá chegarás se tiveres de chegar. Queres mais "liberal", e triste, do que isto?

Adenda: O José Medeiros Ferreira é meu amigo. Sem homens como o Medeiros - um "velho senhor da esquerda", como escreves, mas certamente mais jovem de espírito do que muitos ditos de direita precocemente envelhecidos - não haveria tantos furiosos liberais em Portugal no ano da graça de 2009. Devemos-lhe (desde a Europa quando muitos dos "liberais" de hoje a negavam a outras coisas) isso.

O AMIGO DE PENICHE


O beto belfo por ele mesmo. Aqui. Nos únicos momentos aproveitáveis, reconhece que não é um upgrade de Vitalino e que Mário Soares "não faz mossas". O resto é propaganda reles e aquela tremenda relação difícil com a verdade. Aí, o admirável líder, como se viu ontem a propósito da pobreza, é inultrapassável.

O REI MAGO

Ia citá-lo, António, juro. Mas depois tropecei no primeiro parágrafo, nos elogios ao improvável presidente do Tribunal de Contas e ao seu ainda mais improvável "conselho para a prevenção da corrupção" (uma invenção do PS "socrático" para não se fazer nada) e nas seguintes frases. «Os corruptos que se cuidem: estão sob observação. E o “observador” não é daqueles que se deixa facilmente convencer por argumentos de afinidade. Sabe-se, por exemplo, que se interessou recentemente pelo terminal de contentores, o que bastou para criar enorme expectativa.» E nisto.«A corrupção é legal e tem apoio partidário e parlamentar. Por isso, há que «liquidar a maior parte das seis ou sete dezenas de Observatórios que existem na Administração Pública. Observatórios de tudo e nada, que se resumem a organizações de livre recrutamento dos amigos e fiéis e a casulos onde crescem fios e redes de interesses. Ao mesmo tempo, limitar drasticamente o número de assessores, adjuntos, consultores e conselheiros que cada gabinete governamental pode recrutar. Hoje, além dos quadros legais, são uns milhares deles, sem contar as empresas e as agências “subcontratadas”. São os locais ideais de reunião das células partidárias de cada ministério. São estas as fábricas de propaganda, eventos e inaugurações. São os alfobres das políticas de destruição dos adversários e de criação de factos políticos. São os viveiros dos futuros directores-gerais e quadros dos partidos. São os laboratórios de produção de interesses, de satisfação de pretensões e de invenção de intrigas. Aqui, a corrupção é lícita, avençada e remunerada a recibo verde. Aqui se faz o que a lei proíbe aos serviços de fazer.» Com a sua lucidez e com o seu realismo, o António ainda acredita no Pai Natal?

O FIM DO MUNDO


Independentemente da causa a dor é apenas isto :«chaque fois unique, la fin du monde.» (Jacques Derrida). Ou Tracy Letts, em August: Osage County: «acabou o mundo».

AS RAZÕES DO SR. OLIM


«Por razões anatómicas, os homens estão mais expostos a doenças graves que possam ser transmitidas» e vai daí o sr. Olim, presidente do Instituto Português de Sangue e autor desta sublime conclusão, deduziu que os homossexuais masculinos não podem dar sangue. Haja uma alma caridosa (ou melhor, duas) que leve o sr. Olim até um quarto (de preferência escuro) e lhe explique que "as razões anatómicas" nada têm a ver com "exposições" a isto ou aquilo e vice-versa. E outra que o retire imediatamente da chefia de um organismo pago por todos nós para nos servir. Por razões de higiene mental.

CONTRA OS FALSOS PROFETAS

Em jeito de resposta à leviandade de Henrique Raposo, estas palavras serenas de José Medeiros Ferreira, insuspeito de frequentar (algumas) missas.

«Sou um antidogmático empedernido mas sigo este Papa com curiosidade intelectual crescente. Ora, Bento XVI acaba de publicar a encíclica ‘Caritas in Veritas’, e só o título me apaixona. Detesto cada vez mais os que fazem do saber um instrumento de domínio sobre o seu semelhante, e a carta papal começa exactamente por aí: "Defender a verdade, propô-la com humildade e convicção e testemunhá-la na vida." Assim a verdade há-de ser encontrada e usada num contexto de diálogo e comunhão com os demais. Porém: "Sem verdade, a caridade cai no sentimentalismo." Bento XVI está preocupado com a actual fase da globalização, na qual falta a justiça, e alerta contra os falsos profetas, já que "a Igreja não tem soluções técnicas para oferecer e não pretende de modo algum imiscuir-se na política dos Estados"; e quantos não se apresentam na vida pública insinuando que têm soluções técnicas com essa origem.»

18.7.09

DA LEVIANDADE


Só costumo discutir Joseph Ratzinger com quem já o leu. E em Portugal pouca gente o fez. O Henrique Raposo, munido do seu olhómetro "liberal", passou a vista pela última encíclica do Papa. Duas vezes, no Expresso. Respondeu-lhe o padre/poeta sistémico Tolentino Mendonça. Não leio Mendonça mas leio Raposo. Sucede que Raposo - que considero um soi disant liberal legível apesar de beber da "Espada& Cia. académica", esta, sim, de difícil trago - foi, como confessa, leviano. Diz ele (presumo que a sério o que torna o caso mais sério) que «não estava a analisar o Papa ; eu estava a gozar com o Papa», como se fosse o Alfredo Barroso ou o Daniel Oliveira, dois colegas dele, "liberais" de esquerda. E não, Henrique, não existe a menor confusão entre a Doutrina Social da Igreja e o esquerdismo marxista no que respeita à globalização. Como não és católico, não és obrigado a saber o que significa a caritas dos Evangelhos, das Cartas e das Encíclicas. Mas como és alfabetizado, tinhas obrigação de interpretar. Ora o Papa fala-nos da caritas in veritate nas relações económicas, sociais ou laborais, domésticas ou internacionais, financeiras ou outras. E parte da democracia, a nossa, a ocidental e cristã - vem lá na Encíclica - como "base" para desenvolver o seu pensamento acerca da globalização. Que eu saiba, Kim-Jong-Il, Chávez, ou mesmo Putin ou Hu Jintao, apesar de andarem com o credo do mercado na boca (outros "liberais") não só não são muito dados à "caritas na verdade" como não são propriamente uns adeptos da "nossa" democracia. A globalização de que fala o Papa é, por isso, inconfundível com a dos marxistas em exercício ou meramente teóricos. Depois o Papa não responde pelas diatribes de certos padres, mesmo que sejam cardeais. João Paulo II e Bento XVI são inequívocos sobre tonterias como, por exemplo, a "teologia da libertação". Defender a redistribuição da riqueza, a limitação da pobreza, sustentar a intervenção do Estado junto de uma falaciosa sociedade civil "empreendedora" que parasita o mesmo Estado e os contribuintes é estar com Louçã e Sousa Santos, Henrique? Por que não com Portas, o Paulo? Ou com o senhor engenheiro Van Zeller? Ou com esse monstro do "empreendedorismo" nacional que é o sr. Carrapatoso e o seu patético "compromisso" da mão estendida à complacência estatal? Não foi o Papa (e este, muito especialmente) que não deixou entrar a realidade na sua cabeça. És tu, Henrique, e muitos liberalóides ratitos de biblioteca quem, muitas vezes, detém a realidade à porta da "teoria". Mais de dois mil anos de "terreno" é uma patine insubstituível. E como ensina Ratzinger, há tantos caminhos para Deus quanto há homens. Mesmo levianos como tu.

LISBOA, COSTA E O ACORDO COLIGATÓRIO QUE DEIXOU OS LISBOETAS DE FORA


«Ao falarem, como falaram, de lugares, de listas, de números uns e números dois, de vice-presidências, de lugares elegíveis, sem fazerem a mínima alusão a causas e objectivos de programa, revelaram aquilo que os preocupa: tudo fazerem para manter o poder, sem se dedicarem aos aspectos que poderiam implicar mudanças nas condições de vida dos Lisboetas. Num caso, fez-se uma cerimónia num miradouro com uma associação recentemente criada, para o efeito, por um Vereador e, noutro, o actual Presidente e uma Vereadora foram assinar um texto a uma sala de Hotel, depois de reuniões com umas poucas de «bases» nos gabinetes da própria Câmara. Disseram, então, para quem seria o número um da lista, quem ficaria com o segundo lugar e quem poderia ser Vice - Presidente… Sendo assuntos tão sérios, nem se pode acreditar no que parecia, algo como palavras de crianças a brincarem com assuntos de adultos.»

Pedro Santana Lopes, Lisboa com sentido

A TENTAÇÃO DE PORTAS

«Não é proibindo sondagens durante as campanhas eleitorais, como propôs infantil e perigosamente o CDS-PP, que se resolve o problema.»

Eduardo Cintra Torres, Público

UM PEDIDO (SATISFEITO) SOBRE O SÃO CARLOS



Ao Diogo Vasconcelos, de Londres e de sempre, a Manuel Matos, de Coimbra, e a Carlos Pereira da Cruz os meus agradecimentos pelo artigo sobre o São Carlos, a temporada e o sr. Christoph Dammann, o seu funesto director-artístico. Desta vez Jorge Calado acerta até pelas comparações oportunas que faz. Dammann é das piores coisas que caíram em cima do nosso único teatro lírico onde o verdadeiro director continua a ser Mário Vieira de Carvalho. Pinto Ribeiro afirmou não concordar com a gestão em curso - a OPART - mas não mexeu uma palha. Estão todos bem uns para outros. Todavia, o público e os contribuintes é que não devem suportar tanta esperteza saloia sob a capa de um cosmopolitismo de paróquia. Como escreve Calado no Expresso, «registe-se que a Vlaamse Opera (a segunda casa de ópera belga) tem nove [produções contra seis por ano no S. Carlos], a Netherlands Opera tem 15 e a Ópera Nacional Finlandesa tem 14. Todas nações pequenas, sem grandes tradições operáticas [contrariamente ao Teatro de Lisboa] (...) que já foi de Gigli, Mödl, Kraus, Gorr, Schöffler, Resnik, Zampieri e Theodossiou.» Mais. «O que Christoph Dammann, director artístico do teatro, tem feito desde a sua conturbada nomeação é, a vários títulos, desastroso. Com as excepções que só confirmam a regra, as escolhas de repertório, de produções, elencos e maestros revelam uma gritante incompetência, reconhecida à esquerda e à direita (...). Dammann esconde-se atrás de uma pseudolealdade para com os artistas que convida, mesmo maus. A lealdade primeira deveria ser para com o público português que lhe paga (...). O problema, meus senhores, não é a falta de estrelas e de cantores caros. O problema são os maus cantores, os maestros desadequados, os encenadores patetas, o pouco respeito pelo público (...). O Estúdio de Ópera é menos um laboratório de pesquisa e formação e mais um truque para fazer mais e baratinho (três títulos entre Novembro/Dezembro) (...). O Opart e a actual direcção do São Carlos desfazem-se em estatísticas para provar a bondade das mudanças. Para eles, a ópera são números, não são pessoas.»

Clip: Verdi, Macbeth.Mara Zampieri, Ópera de Berlim, Giuseppe Sinopoli. 1987

O BEATO SALVADOR


Passos Coelho, no seu jornal oficioso, volta a repetir aquela luminosa "ideia" de que o PSD está obrigado a ganhar as legislativas. E com maioria absoluta. Porquê? Porque o nosso eterno jovem «tem uma maneira de ver o PSD», «tem um projecto que podia caracterizar como de mobilização e de prosperidade relativamente ao futuro do país», «e se houver no futuro necessidade de as voltar a protagonizar ao nível do PSD», não está «diminuído na possibilidade de (se) voltar a candidatar a presidente do PSD.» Não se esqueçam, pois, de dar um lugarzinho nas listas a mais este candidato a beato salvador. Depois queixem-se.

Adenda: «Como é que alguém que acha que está tudo mal na direcção do seu partido e na sua política pode fazer uma campanha de boa fé por essa direcção e essa política que vai a votos? Ainda mais quando o seu próprio lugar vai estar assegurado não pelo seu mérito individual, mas por uma escolha intra-partidária, à boleia de uma política com que não se concorda. Seria bom acabar nos partidos com as ideias de “carreira” em que todos os pretextos são bons para se ser deputado ou voltar a ser deputado, mais pelo cargo do que pelas políticas, muitas vezes com reserva mental sobre os cenários pós-eleitorais e não sobre o mérito do combate eleitoral em si mesmo. Mais uma vez é o lugar e o emprego que contam e não a política.»

O PONTO G

Para fingir que combate a corrupção, o PS inventou uma coisa apelidada de "conselho de prevenção da corrupção" composto por criaturas estimáveis e inofensivas. O "teórico" destas matérias, João Cravinho, que "combate" a dita a partir do BERD, em Londres, e em meia dúzia de entrevistas que debita periodicamente ao país, acha que não chega e que é preciso ir "ao ponto essencial" da corrupção, a sua dimensão política. Seguramente Cravinho não está à espera que um "conselho" de amáveis burocratas atinja o "ponto G" da corrupção, pois não?

A FALA SILENCIOSA DOS INTELECTUAIS


Pede-me um leitor que dedique mais tempo a temas culturais. Talvez para poder ser mais "consensual". Esforço-me. Juro que me esforço como Diógenes encadeado na rua pela luz do sol mas sempre com a lanterna ligada. Sucede que aparecem coisas como este "manifesto" (os "manifestos", agora, deram em ser desenrolados como papel higiénico) de "intelectuais" PS friendly. Tiveram quatro anos para "levantar" estas questões profundas e graves para o futuro da pátria. Ainda por cima tiveram uma maioria absoluta para as "resolver". Percebe, leitor conciliador, por que é que não vale a pena?

UM BELO SONHO

Leio que, em nome do céu nocturno e do brilho das estrelas, Portugal se apaga. Que belo sonho.

AUGUST:OSAGE COUNTY


Agosto em Osage. Três horas de grande teatro. Um texto soberbo de Tracy Letts (Pulitzer para teatro em 2008) a recordar o melhor Tennessee Williams. Até 2 de Agosto no D. Maria II em Lisboa. Encenação de Fernanda Lapa, cenografia e figurinos de António Lagarto e desenho de luz de Orlando Worm. Com Adriano Luz, Ana Margarida Pereira, Filomena Cautela, Isabel Medina, João Grosso, José Neves, Lia Gama, Luís Lucas, Manuel Coelho, Margarida Marinho, Marina Albuquerque, Mário Jacques, Paula Mora.

17.7.09

FIGUEIRA - 2


«“Lisboeta militante”, João Gonçalves contesta no entanto “essa mania de só se poder debater o país a partir de Lisboa, e de dois ou três canais de televisão, por duas ou três pessoas que saltitam entre esses canais”. À plateia que marcou presença no Casino Figueira para privar com o conhecido bloguista, João Gonçalves apelou: “Esqueçam o país que vos chega pela televisão… esse é um país «mentido», para utilizar a expressão de um poeta português, e que só existe na cabeça dos políticos… e é dos poucos que têm cabeça”. No blogue, João Gonçalves encontrou o meio de passar o que lhe interessa: “a mensagem”. Avesso a redes sociais como o Facebook, ou a meios de comunicação imediatistas, como o Twitter, o autor rendeu-se à blogosfera, onde – apesar de tudo – a mensagem permanece. “Em Portugal, mais do que mensagem, há muita massagem”, ironizou, crítico da “invasão do futebol”, da “pouca originalidade” dominante e de “uma espécie de língua de pau muito maçadora e absolutamente inútil para a maioria das pessoas”, mas com que estas parecem “viver bem”, a julgar pela “abstenção no último acto eleitoral”, que não acredita que se altere significativamente nos próximos. “Nos últimos quatro anos há como que uma anestesia cívica”, lamentou, afirmando que “o país está num momento paradoxal, e a precisar urgentemente de reflexão”. Dando a cobertura mediática da transferência de Cristiano Ronaldo e a morte de Michael Jackson como exemplos da “infantilização da vida pública nacional, ao fim de 35 anos de democracia”, João Gonçalves não arrisca dizer que o país “estava melhor há 20 e tal anos, porque o decurso do tempo traz coisas boas e más”, mas questiona se as pessoas estão, hoje, “melhor do que em 2005”. E, à pergunta da plateia, sobre como se altera o estado de coisas, João Gonçalves não teve dúvidas: “votando”. Para o autor, o voto “é o que a democracia nos permite” e, “ainda que não goste do regime”, que considera “o regime da contingência” e “nebuloso por natureza”, João Gonçalves não acredita nem em novos partidos nem em plataformas.»

Semanário O Figueirense, 17.7.09 (lembranças para os amigos da Figueira, em especial o Almocreve, e para o Pedro Santana Lopes que sabe porquê)

O RUMO DE SOARES


Ao dr. Soares não bastou a humilhação imposta por uma "dona de casa", em 1999, no Parlamento Europeu. O dr. Soares, consta, chegou a sonhar com a presidência da Comissão Europeia como se pode constatar pelas "cartas" que assinou (com outras eminências socialistas reformadas) contra Barroso antes do acto eleitoral de 7 de Junho. Ou pelo que os seus pobres epígonos domésticos andam para aí a dizer de Barroso. É por isso natural que, depois da derrota dos socialistas, ache que a Europa está sem rumo e, sobretudo, sem um Obama que eventualmente até poderia ser ele. O artigo no hebdomadário espanhol representa apenas a continuação desta ladainha insossa tanto mais quando Barroso anda por aí a explicar a quem interessa explicar que, se for preciso, também sabe ser um Obama e um virtuoso reformador ecológico. Com a vantagem de que lhe dão algum crédito.

COSTA E O SEU CÍRCULO


O meu amigo Medeiros Ferreira, uma vez convidado a comparecer no Jardim de São Pedro de Alcântara aquando do remake do dr. Costa, aderiu de imediato à "frente" montada contra a alegada "fronda" representada por Santana Lopes. Sucede que a "frente" do dr. Costa é mais um círculo de que outra coisa qualquer. Costa, o segundo do partido de Sócrates, precisa distanciar-se, pela esquerda, daquela nebulosa estéril personificada pelo líder. Não é por acaso que Alegre - o verdadeiro autor do "acordo coligatório" com Roseta - já fez saber que aprecia a ideia de mais "acordos coligatórios" quixotescos (do PS com amigos dele, porventura também do PS) pelo país fora. Ou que Costa, na conversa familiar das quintas-feiras à noite na Sic-Notícias, tivesse elogiado tanto a "luta pela liberdade" do PC por causa das diatribes do dr. Jardim. Se razões não houvesse para extirpar da Constituição quaisquer referências ideológicas (porque é disso que se trata e não da "história"), o patético circo "anti-fascista" de fachada montado em torno da recandidatura de Costa a Lisboa bastaria para fornecer uma. Costa esteve politicamente bem na entrevista a Judite de Sousa (o que só releva para efeitos da vida interna do PS e da dele) mas, quanto ao mais, parecia um mero intendente à deriva no meio do caos. Costa tem tanta vocação para presidente de Câmara quanto eu. Lopes é apenas o pretexto. O que o círculo/circo da sua recandidatura pretende frivolamente exibir é a revolta por cinco anos de Sócrates à frente do maior partido dito da esquerda, prestando-se Costa a fazer de Iago do seu "senhor". A jurada (e repetida publicamente até à náusea) amizade ao líder - quando se sabe que em política não há nem gratidão nem amizade - faz parte deste "círculo freudiano" apascentado, no fundo, pelo ressentimento e pela perda de identidade. Para gáudio do PC e do Bloco que aparecem, em Lisboa, sem "complexos". No imaginário destes esperançados desesperados, Costa, o "fiel amigo" dos romances e das peças de teatro, é a derradeira oportunidade para a "redenção". O resto é literatura. E da má.

SAÚDE SEM VIDA


Por causa da gripe, já se fala em banir provisoriamente a comunhão na missa, a água-benta e a saudação entre os participantes. O director-geral da saúde também recomenda que não se deslize mãos e rabo por corrimões, que se evite as caixas multibanco, que se fuja de apoios nos autocarros e no metro, de abrir ou fechar portas ou que (por que não?) não se coma à mesa já que é uma "superfície". Em suma, que se deixe de viver. Da obsessão doentia pela vida saudável - corridinhas, ginásios, andar a pé, não ingerir isto ou aquilo - passámos para a obsessão pela saúde sem vida. Não haverá Júlio de Matos suficientes para internar tanta gente.

16.7.09

PODER INCULTO

Num país recentemente enxameado de "politólogos", repare-se na actualidade destas palavras de Francisco Lucas Pires (este, sim, era a sério) escritas em 1978. «O poder em Portugal tem sido sempre muito mais familiar e muito mais inculto – pelo menos do ponto de vista político – do que é normal.»

DE "LUGAR-COMUM" A "MOTOR DA ECONOMIA"

Francisco José Viegas traz-nos de volta, para além dele mesmo (o que se saúda), o "João Tiago". Sucede que o "João Tiago" é, nem mais, nem menos que o porta-voz do PS. Só é novo em idade porque até consegue ser mais confrangedor do que Vitalino. É este em muito mau o que não deixa de ser um elogio a Canas. Pois o nosso "João Tiago" - o PS do admirável líder - pretende "reforçar o poder de compra" da classe média que considera "o motor da economia". Ora o "João Tiago" não fez o trabalho de casa. Em 2006, numa célebre viagem a Moçambique onde, na prática, deu Cahora Bassa ao senhor Gebuza, Sócrates protagonizou uma reportagem do Público, efectuada no avião. Lá pelo meio pronunciou-se sobre a classe média que, agora, mandou o "João Tiago" venerar a bem do dia 27 de Setembro próximo. O texto está no livro Portugal dos Pequeninos, ali à direita. «A melhor frase produzida por Sócrates é esta e denuncia o inconsciente autoritário do chefe do governo: «O que é isso da classe média, a não ser um lugar-comum?». Pois é, senhor engenheiro. V. Exa. devia saber que foi justamente esse "lugar comum" que lhe deu a vitória nas legislativas e é esse "lugar-comum" que V. Exa. vem metodicamente enterrando enquanto "mestre das escaramuças", como lhe chamou António Barreto. Será, aliás, esse "lugar-comum" que o "enterrará", a si, em devido tempo.» Já faltou mais.

DO INTERESSE PÚBLICO

O Tribunal de Contas declarou "ruinoso" para o Estado - ou seja, para os contribuintes - o famoso "alargamento" (espaço e contrato prorrogado por vinte e sete anos para o "terminal de Alcântara") a favor de uma empresa do "universo" Mota-Engil do engenhoso dr. Jorge Coelho. Concordo com Miguel Sousa Tavares, o comentador político. Se se partir do princípio que o Tribunal de Contas, na pessoa do seu presidente, não é um mero "verbo de encher", o admirável 1º ministro devia demitir imediatamente o simpático eng. º Lino e a sua dupla de secretários de Estado, Campos júnior e a ambiciosa Ana Paula Vitorino. Não estão manifestamente à altura do interesse público que deviam representar.

SEM ISMOS


Ao contrário do dr. Jardim (que introduziu um ruído perfeitamente inútil nesta altura do campeonato não fosse a gente esquecer-se dele...), julgo que a Constituição não deve proibir ideologias. Nem o fascismo, nem o comunismo nem outro "ismo" qualquer. O que na Constituição deve mudar é o sistema político, reforçando-se o papel do PR - isto é, acabar com o semi-parlamentarismo de chanceler em vigor -, o sistema económico (que não precisa de tantas "disposições"), o sistema judicial (onde a única magistratura deveria ser a judicial e onde o PR passasse a nomear o PGR) e o sistema de reservas absolutas e relativas de poderes (que acompanhasse a presidencialização do regime e o inerente poder de convocar referendos). Metade ou menos de metade do presente articulado chegava.

«SOBRETUDO NO PSD»

«Existe um dado com que muitos, sobretudo no PSD, não contaram: Manuela Ferreira Leite parece estar a gostar de ser líder. A septuagenária, como ainda há pouco lhe chamavam, está mais livre que a maior parte dos seus colegas de partido: já fez profissionalmente o que tinha a fazer e, ao fim de todos estes anos na política, não deve temer que lhe vasculhem o passado. Ser líder pode ser não o valiosíssimo serviço que alguns esperavam que lhes prestasse, mas sim o projecto de quem, pessoalmente, não tem nada a perder.»

Helena Matos, Público (via Povo)

PS, O PARTIDO SUPERFÍCIE



«As duas cores e sua arrumação não só indiciam a bandeira nacional como colocam Sócrates no centro da bandeira, no lugar da esfera armilar dourada: Sócrates regressa, pois, neste cartaz como o "menino de ouro" - e não só do PS mas de Portugal.(...) Marcos Perestrello surge só como manequim, ou modelo, ou actor de quem se mostra a cara. O principal "billboard" de Perestrello utiliza um plano de pormenor que nos coloca a uma distância simbólica ínfima do fotografado. O plano de pormenor de caras é raro em cartazes (usa-se muito em telenovelas). (...) Neste campanha Perestrello é o Brad Pitt do PS, o plano de pormenor aproximadíssimo tem a ousadia de o apresentar ainda mais belo que o actor. A superficialidade da política chega aqui à flor da pele.»

Eduardo Cintra Torres, Jornal de Negócios

O FARSANTE NA SUA FANTASIA

Se fosse de esquerda, sentir-me-ia vexado pelas palavras do secretário-geral do PS aos membros da seita de Lisboa. Sócrates acha que ele - e os seus lugar-tenentes como António Costa - representa a esquerda e que deve ser "fortalecido" por causa disso. Apela, sem vergonha, ao voto útil das esquerdas na sua admirável pessoa depois de quatro anos de insultos, de arrogância pueril e de apoucamento. Não percebeu que as esquerdas preferem o original a uma fotocópia de ocasião, meramente oportunista, sem nada por baixo. Sócrates vai pagar - à esquerda e à direita - a factura da farsa que andou a alimentar. Perderá para a esquerda e para a direita. A fantasia que ele representa está, pois, a chegar ao fim. Os militantes da seita que ainda são de esquerda que lhe expliquem porquê.

Adenda: Por falar em fantasia. «O porta-voz do ministério das Finanças [Vítor Constâncio] acabou por se tornar numa figura menor que, neste momento, incomoda já o próprio Governo. Só ele, na sua megalomania, é que ainda não percebeu que é um triste símbolo de um ciclo que terminou.»

KARAJAN



Em tempos sombrios, de pigmeus insignificantes, recordar a grandeza de Herbert von Karajan no vigésimo aniversário da sua morte é um serviço público. Não era, naturalmente, um democrata. Porquê? Porque, como se explica neste notável post, «se há área onde a democracia não funciona é na direcção de uma orquestra; esta toca como um todo, sujeita à orientação de quem a conduz e servindo uma determinada interpretação da obra em causa, e nem poderia ser de outra maneira, sob pena de produzir uma peça híbrida e esteticamente ilegível.» De resto, Karajan permanece como «um dos mais notáveis maestros do século XX, que dirigiu a Orquestra Filarmónica de Berlim durante trinta e cinco anos.» Se me permitem, o maior.

Clip: 1º andamento da 9ª Sinfonia de Beethoven. Berliner Philarmoniker

15.7.09

ILUSÕES PERDIDAS

«Viver na pobreza não quer dizer que sejamos miseráveis; quer, sim, dizer que devemos viver na exacta medida das nossas possibilidades, que devemos premiar o esforço e o trabalho, que devemos ter os melhores a dirigir, que se deve restaurar o princípio da poupança e dos sacrifícios. Viver modestamente não quer dizer que vivamos em penúria, mas que sejamos os primeiros a reconhecer que o tipo de figurino que nos impuseram se transformou na maior causa de frustração para quantos acreditaram poder viver como europeus ricos e ociosos.»

Miguel Castelo-Branco, Combustões

COISA EM FORMA DE COLIGATÓRIO


Como não há possibilidade de um partido se coligar com pessoas, o PS, através do dr. Costa, inventou uma coisa chamada "acordo coligatório" - é mais supositório político do que outra coisa - para meter a arq.ª Roseta no bolso do casaco. Os dois, numa patética conferência de imprensa, mostraram, afinal, uma coligação do PS com ele mesmo, apesar de Roseta insistir com os jornalistas para a tratarem como independente. O que diz tudo sobre Roseta e o seu defunto "movimento de cidadãos". Sucede que quem votou há dois anos em Roseta, votou contra a "lógica" partidária em que a senhora acaba de entrar. Não sei, porém, se os "cidadãos" de Roseta estarão dispostos a ser tomados por parvos. Esta contradição insanável vai sair cara aos dois candidatos. Não somaram nada. Só se diminuíram aos olhos dos lisboetas.

Nota: Roseta está a ser entrevistada na Sic-Notícias, um canal particularmente favorável ao dr. Costa e onde ele desenvolve um part-time semanal. Uma vez que a senhora está em "acordo coligatório", ou seja, diluída no PS, a que título, já que não é candidata à presidência da CML, é que tem direito a isto?

DA MOTA

Para além de se manter em funções no Eurojust, o procurador da Mota também entende que deve mandar no sr. PGR. Da Mota não quer o instrutor do seu processo disciplinar indicado pelo conselho superior da PGR. Levantou o incidente da suspeição, uma manifesta ironia vindo de quem vem. Tudo, como de costume, acabará em bem.

O ÚNICO


Cavaco Silva faz hoje setenta anos. Parabéns duplos. Pelo dia e por ser praticamente o único eleito confiável em exercício de funções.

LÁ ATRÁS


Reparo que o Eduardo Pitta - num arrebatamento narcísico despropositado - confundiu os convivas do Martinho da Arcada com a suposta intelligentsia nacional. Só revela que, trinta e cinco anos depois, não temos elites. Normalmente o que a intelligentsia nacional tem feito, salvo raras excepções, é a figura daqueles cavalheiros da foto. A dos que estão lá atrás.


Adenda: Um dos membros da claque é esse prodígio da intelligentsia nacional que dá pelo nome de Vasco Lourenço. Da última vez que apareceu numa coisa destas, como mandatário do famoso Joãozinho em 2001, conhecem-se os resultados. Um vulto.

AS CONVICÇÕES DE UMA SENTIMENTAL


Há dois anos Helena Roseta prestou um bom serviço à cidadania política. Parecia, finalmente, uma adulta. Não aceitou o diktat do seu ex-partido, o PS do dr. Costa, e avançou, generosa e livre, para Lisboa. Costa, aliás, não a poupou com os mimos típicos da nomenclatura que considera abjectos quaisquer laivos de independência. Viu-se o que fez ao "Zé". Agora, anuncia-se, Roseta está disposta a trocar a diferença que a fez ter votos por lugares. Em concreto, pelo lugar dela como "número 2" na lista de Costa para Lisboa e por um segundo bonzo elegível. Anda, diz, a negociar. Mais valia regressar ao PS do que meter-se nesse albergue espanhol em que se está tornar a recandidatura de Costa. Sempre era mais honesto. E a política não se faz com bons (neste caso péssimos) sentimentos. Afinal não cresceu nem aprendeu nada.

14.7.09

O AUTO DO DR. NUNES

O senhor ASAE, o dr. Nunes (cuja fulgurante carreira na alta administração pública começou com o sr. Vara), depois de uma exposição excessiva por causa de croquetes caseiros e de cigarros nos restaurantes, passou quase à clandestinidade. Sócrates - não Pinho porque esse percebia pouca coisa - percebeu que não convinha exibir demasiado o dr. Nunes e os seu rapazes. Mesmo assim, a ASAE tem poderes de polícia criminal que o Tribunal da Relação de Lisboa, unanimemente, considerou inconstitucionais. E chegou a esta conclusão depois de um processo motivado por uma queixa em torno, vejam lá, de uma "raspadinha" vendida num café. Agora é que o dr. Nunes já não sai do justíssimo anonimato para onde foi remetido. Nem que os seus homens o autuem.

SEGUIR EM FRENTE


Ontem à noite, na televisão onde é comentador, o dr. Costa passou quase uma hora a dizer mal de Pedro Santana Lopes. Só se atrapalhou quando quis enunciar as suas "cinco medidas". Parecia um marrão numa oral de direito. Decorado mas não sabido. Na RTP, Santana Lopes falou aos lisboetas sobre Lisboa. A Lisboa do trânsito caótico, da Praça do Comércio inacessível, vedada, feia. A Lisboa do aeroporto da Portela que o dr. Costa queria transformar num jardim florido. A Lisboa que não quer o IPO fora do centro. A Lisboa que não quer um terminal de contentores em Alcântara. A Lisboa que pretende ver mais prédios recuperados. A Lisboa sem a demagogia das contabilidades enganadoras. A Lisboa que não pode continuar a viver a crédito bancário, uma especialidade (porventura a única) do dr. Costa. Santana Lopes, repito-o, não é perfeito e, felizmente, não conta com o sr. Saramago. Conta com os lisboetas na maior tranquilidade de espírito. Não é recandidato depois de ter sido mero recurso eleito num mar de indiferença. Não se agarra a lugares-comuns mas às pessoas. Não desceu do absolutismo onde preparou uma lei de finanças regionais que lhe rebentou nas mãos. Preparou-se. E está preparado para governar Lisboa sem a massacrar. É só seguir em frente.

FRACA CLAQUE


O que é que pode juntar Eduardo Lourenço, Lídia Jorge, Rui Vieira Nery - soube depois, o "mestre da banda" -, o major Pedroso Marques (o padrasto do interessado ausente), Lídia Franco, Gastão Cruz, Eduardo Pitta, Raul Solnado, Margarida Martins, a ex-Guida Gorda do Frágil-quando-ele-era-vivo, e umas senhoras e uns senhores com ar soixante-huitard e de pochete a tiracolo, num fim de tarde, no Martinho da Arcada? Visto de fora, como eu via juntamente com esta moça prendada com quem tinha combinado uma água com anos de atraso, parecia um remake, em pequenino, de cenas conhecidas de vésperas eleitorais das esquerdas. Quando "homens e mulheres de cultura" se juntam à mesa-sombra de Pessoa, o caso merece atenção. Todavia, era fácil de entender sem perguntar nada. Cada um dos presentes vale, na circunstância, aquilo que os fez sentar juntos. Um voto em António Costa. Nem mais nem menos. Não "o" voto da cultura em Costa - tão maltratada em quatro anos PS de que o eleito dos convivas é o "nº 2" orgulhoso como não se cansa de repetir - mas os votos daquelas almas no incumbente da Praça do Munícipio. Fraca claque.

LINO TERMINAL


O mal que Mário Lino faz ao país enquanto ministro do betão e das comunicações só será devidamente avaliado daqui a alguns anos. Não é por acaso que ele outro dia confessou que já estava "velho" para isto e não vê a hora de desaparecer. Humanamente, não consigo deixar de sentir uma vaga simpatia por ele. No mais, Lino - o homem de uma fundação misteriosa, do Magalhães, das estradas, dos ajustes directos, da trapalhada do terminal de contentores de Alcântara, etc., etc. - apenas serve para comprometer o país (e os contribuintes) em coisas por vir. Nunca devia ter vindo.

MARIA DE LURDES, UM RESUMO

Não vale a pena gastar mais latim com a socióloga do ISCTE emprestada, por quatro penosos anos, à 5 de Outubro. A capa do Público resume-a. Há uma semana havia o dobro das negativas a matemática no 12º ano em relação a 2008. Segundo Maria de Lurdes, houve «menos investimento, menos trabalho e menos estudo» dos alunos. Culpa? Comunicação social e Nuno Crato. Ontem, com metade das negativas na matemática do 9º ano em relação a 2007, Maria de Lurdes acha que «isso deve encher-nos de orgulho, é muito positivo e bom para o país.» Pobre Maria de Lurdes. Pobre país.

14 DE JULHO



Jessye Norman, Paris, 14 de Julho de 1989

O VASCO


O que agora mais me custa nas terríveis intermitências do sono é não encontrar o meu cão no silêncio da casa. Antes de o substituir por mais um comprimido, estive a ler a entrevista do Vasco Pulido Valente na revista com o mesmo nome. Uso o "do" porque, outro dia, ele proibiu-me de o tratar por professor (foi nessa qualidade que tropecei nele quando ainda tinha dezassete anos, na Católica) e exigiu "o" Vasco. Esta entrevista é das coisas mais notáveis que li dele, apesar das perguntas "pastosas" do entrevistador. O Vasco, entretanto, está para além de qualquer entrevistador. Estes anos - e outros tantos, de outros tempos e séculos, por causa da história - jamais serão devidamente entendidos sem se ler o Vasco. Sem se "ouvir" o Vasco. A vida dele é "tentar perceber" - e há melhor vida do que essa, por muito dolorosa que seja? - isto. Ainda não desistiu embora já não tenha paciência para "remastigar Portugal". Em poucas linhas, está lá tudo. Do génio - Eça - ao trash que é a designação que ele encontrou para este mundo em que quase tudo é quase já só sub-mundo: «a dimensão histórica das pessoas perdeu-se.» Umas páginas adiante, uma pequenina entrevista a um politólogo da moda, apresentado como "professor universitário e surfista", é elucidativa do que perdemos. Diz o Vasco que a sua voz é apenas uma "vozinha" que não dá para Verdi ou Wagner. Tomáramos nós ter esta "vozinha" do Vasco. Inconfundível e amarga, lúcida e sobriamente divertida, dada ao luxo da leitura e da escrita, bens escassos num tempo que é definitivamente da história. Vou-me deitar.

SEM COMENTÁRIOS

Talvez em 1999, por ocasião das europeias, Baldaia, o presente director da TSF arrastava-se atrás do dr. Soares, famoso cabeça de lista do PS que ia para o PE destronar uma dona-de-casa. Talvez. Julgo que era ele ou alguém muito parecido com ele. O dr. Soares não tirou a presidência do PE à mencionada dona-de-casa. Baldaia, entretanto, anda por aí. Consta que a fazer coisas destas, que o Joaquim Jorge descreve. Sem comentários.

13.7.09

QUANDO A MARINHA ERA GLORIOSA


O Almocreve e o Do Médio Oriente e Afins aludem ao texto inserido ontem na Pública (suplemento do Público de domingo) sobre a homossexualidade e o Estado Novo. A autora é São José Almeida. Atrever-me-ia a dizer que o verdadeiro artigo (ou a verdade do artigo) está mais aqui do que na prosa dos "coitadinhos" da jornalista e de alguns depoentes. Como dizia Cesariny, tempos em que a Marinha era gloriosa...

A SANFONICE

«O Partido Socialista concluiu agora, quatro meses e dois mil milhões de euros depois, que ao longo dos anos de saque o Banco de Portugal do antigo secretario-geral socialista tinha exercido a sua fiscalização de forma "estreita e contínua" (pags. 214 e 215 do Relatório Parlamentar ao BPN). Por absurdas que sejam estas conclusões, elas foram lavradas em documento da Assembleia da República, que é o que fica para a história como o relato dos representantes eleitos pelos portugueses da maior roubalheira de sempre na finança nacional. O relatório está feito. Por imoral que seja, vamos ter de viver com ele. Compete ao eleitorado garantir que para a próxima legislatura não haja condições para se repetir uma afronta destas.»

Mário Crespo, Jornal de Notícias

SINGULARIDADES DE UM CANDIDATO


Sócrates apareceu na apresentação do dr. Costa, o incumbente da CML, a recandidato em Lisboa. E disse uma coisa fantástica desmentida pela realidade. Aliás, o admirável líder anda quase sempre desfocado da realidade. Disse que se o PS não crescer, a esquerda não cresce e apontou o referido Costa como o único opositor válido ao candidato da direita. Enganou-se. Desde logo, quando ele teve a maioria absoluta de 2005, teve-a porque algum eleitorado do centro e da direita votou nele. Não "cresceu" pela esquerda porque, nesse dia, toda a esquerda à esquerda dele cresceu. Tal como cresceu no passado dia 7 de Junho. Depois, também se enganou quanto à singularidade de Costa frente à suposta direita. O BE e o PC, pelo menos, têm candidatos próprios. E Helena Roseta não deverá sujeitar-se a fazer de "Zé" de Costa. É a vida.

Adenda: O dr. Costa, convém recordar, participa num programa de comentário político semanal da Sic-Notícias. Como se isso não bastasse, o dr. Costa tem direito a uma entrevista, no mesmo canal, como candidato à CML. Do que é que o canal, o dr. Costa ou os seus colegas de comentário político (que, aliás, o escolheram) estão à espera para suspender a participação do edil no dito programa até ao dia 11 de Outubro? Ou, no limite, para suspender o programa até lá? Não fosse a gente esquecer-se, ele lá salientou que voltava na quinta-feira, "noutra qualidade". Realmente, é muito "autêntico". Desde os 14 aninhos.

UM LIVRO PARA FÉRIAS


Depois de "blogger mais antipático do mundo", Smerdiakov. Um progresso. Literário, apenas. Nunca pensei em me suicidar, não consta que tivesse sido violado, não possuo "intimations of mortality" com a família, gosto de cães, não sofro de epilepsia e, last but not the least, ainda não matei ninguém. Mas nunca se sabe, João. Nunca se sabe.

MÓDICO DE VERDADE


Na galáxia OCDE, Portugal ocupa o sexto lugar no que respeita à taxa de desemprego. A comoção com as "novas oportunidades" não acompanhou a preocupação com o desemprego. Convinha fazer um inventário - Manuela Moura Guedes começou a elaborá-lo no seu Jornal das Sextas mas entretanto foi de férias... - da diferença entre o que foi prometido (designadamente em postos de trabalho) e a realidade. E, dos postos de trabalho criados, quais representam mera propaganda de "encosto" a alguma iniciativa privada. Só assim, com um módico de verdade, é que, "juntos", podemos "conseguir" alguma coisa.

ASSIM SEJA

Apesar de católico, sou favorável à lei da Dra. Maria de Belém, a chamada "lei do testamento vital". Mais. Defendo a eutanásia porque - ao contrário do aborto em que não há, por assim dizer, "audição prévia" - eu posso chegar à conclusão que a minha vida terrena - por motivo de ausência manifesta da qualidade que define a vida - acabou. Quem crê na vida eterna não pode "agarrar-se" a esta porque alegadamente não pode dispor dela. Pode e deve. Segundo Santo Agostinho, há um valor maior do que nós e esse valor é Deus. Quando desse "nós" apenas resta o invólucro, que maior fidelidade Àquele (o Único) que nos acompanha até ao fim dos tempos do que ir, sem sofismas, ao Seu encontro? Confesso, pois, um pecado grave. Mas também é para isso que a Igreja existe. «Não olheis aos nossos pecados mas sim à fé da Vossa Igreja." Assim seja.

SÓ ISTO


Este blogue é assumidamente injusto e contingente. Como a vida. Mentiria se dissesse o contrário. Por isso chega a ser parcial. O custo foi assumido desde o primeiro dia. E tem sido pago em prestações nada suaves. Mais dia menos dia, como tudo, aliás, acabará. Num clip divulgado no Youtube, Gore Vidal aparece de cadeira de rodas a dar uma entrevista. É o maldito joelho. E é, vejam lá o "escândalo", a famosa senectude que, pelos vistos, tanto incómodo causa. Logo a começar, o rapaz que entrevista o escritor pergunta-lhe: "How's everything going?". Vidal é rápido. "Everything is falling apart. And since we are a thing...". É só isto.

DO "PEQUENO" AO "PEQUENINO"



No programa de ontem à noite na Sic-Notícias, José Pacheco Pereira falou na síndrome jornalística - e não só - do "pequeno" e da "pequena". Agora é o "pequeno Martim" como já foi (literalmente) a "pequena Esmeralda" ou a malograda "pequena Joana" com menos sorte mediática do que a "pequena Maddie". Esta síndrome lexical não informa. Só deforma e induz. Sentimentaliza e afasta-se do realismo da notícia. É, noutro registo, o que acontece com alguns comentários. Como o que reproduzo a seguir, de alguém (um "pequeno") qualquer anónimo que muito legitimamente não concorda com o post abaixo, mas que se exprime assim:

«Seguindo o seu raciocínio relativo à fraqueza física que atribui ao Arq. Ribeiro Telles, e dando-se o caso de poder ter observado uma fotografia sua, concluo que você escreve estas misérias porque, simplesmente, é alcoólico. Problema seu. Que o blogue, esse, está um lixo.»

Concluiu, caro leitor, está concluído. Até lhe posso dar o contacto de uma "amiga" que, há uns anos, se juntou a um grupo de almoço semanal entre amigos (a que eu pertencia) apenas para "apurar" a veracidade daquela asserção, então "divulgada" aquando da minha saída da direcção do Teatro São Carlos. Só mais de um ano depois é que essa "amiga" me revelou o "objectivo" (nobre, manifestamente) da sua presença no convívio. Volte sempre. Cheers.

Adenda: Só mais uma nota. A começar pelo autor, este blogue não contempla vacas sagradas.

12.7.09

REQUIEM POR GONÇALO


Lembro-me de Gonçalo Ribeiro Telles da AD de 1979. Na primeira manifestação pública da AD entre o Marquês e o Rossio. E de 80. Depois, dá-me ideia que votei nele (ou em alguém por ele, talvez Miguel Esteves Cardoso) numa autárquicas quaisquer em Lisboa. Quando Soares saiu de Belém, Ribeiro Telles recuperou o seu anti-fascismo romântico e monárquico (sempre estes "nossos pobres monárquicos" na sábia síntese do Doutor Salazar) através do ataviamento arquitectónico que proporcionou à Fundação Mário Soares em São Bento e nas Cortes, perto de Leiria. Andou com o Joãozinho ao colo (ou ele ao colo do Joãozinho) quando este foi edil em Lisboa. Aos poucos, e com as ridículas dissidências no campo monárquico, Ribeiro Telles deixou-se embalar pela "esquerda". Apoiou o "Zé" (Sá Fernandes) quando ele supostamente fazia falta. Agora, que já é uma certeza como oportunista político-delirante, devidamente "encaixado" pelo traquejo tarimbeiro do dr. Costa, Ribeiro Telles não hesita em ir atrás desta mixórdia para Lisboa. A senectude não desculpa tudo.


Adenda: De um leitor devidamente identificado, por mail.
«Ribeiro Telles é assim, mas sempre foi assim. É por isso injusto atribuir à idade as suas opções. O consenso acerca de Ribeiro Telles só foi possível pela ignorância generalizada sobre o que escreveu Caldeira Cabral e o que fizeram vários outros paisagistas da geração de Ribeiro Telles. Durante anos o jardim da Gulbenkian foi atribuído apenas ao Ribeiro Telles quando a base do jardim estava desenhada por Viana Barreto quando o convidou a integrar a equipa de projecto (na sequência da demissão de Ribeiro Telles da Câmara de Lisboa, por causa de uma polémica sobre a vegetação da avenida da Liberdade). Nem por isso Viana Barreto deixou de ser amigo e defender sistematicamente Ribeiro Telles. Ribeiro Telles é um grande comunicador, é um homem de traço fácil no desenho de jardins mas com um ego tremendamente grande que sempre o impediu de reconhecer as dívidas intelectuais que tinha quer para com o professor Caldeira Cabral, quer para os colegas da sua geração que pensaram e escreveram quase todas as ideias que são atribuídas ao seu grande divulgador, Ribeiro Telles. É exactamente este ego, igual ao que sempre foi, que o faz apoiar agora quem apoia. Mas é injusto dizer que está senil porque efectivamente não é verdade.»

A MINISTRA QUE NÃO RASGA

A direita "intelectual" - Pacheco e Marcelo - babou-se para cima de Ana Jorge por causa da gripe. Ana Jorge não vale politicamente nada e alguém está a preparar, com um módico de bom-senso, as intervenções dela. Já Correia de Campos, até dada altura, tinha merecido a complacência de alguma desta gente. E acabou como acabou. Ana Jorge veio entreter até às eleições e, no que toca à gripe, limita-se a ser uma médica responsável. Daí a um ministro da saúde vai a distância das conveniências. Afinal, não se pode mesmo "rasgar" tudo.

AS COISAS SÃO O QUE SÃO




O Pedro Correia, finalmente, leu o meu livro. Só falta acrescentar que o autor dessa evidência/pergunta é o Pedro Santana Lopes. Vem na página 354. As coisas são o que são.

Adenda: Por falar em PSL, o dr. Costa - este diz nos cartazes que "conseguiu" (um tropismo semântico interessante) enquanto o admirável líder, nos seus, acha que "juntos conseguimos", presumindo-se que ainda não "conseguiu" - que passou a sua vida de autarca a pedir empréstimos, mandou para os jornais de domingo um "encarte" da CML, em papel couché e a cores, que abre logo com duas páginas da sua lavra e com a sua cara e que é, naturalmente, destinado à propaganda, não em nome do PS, mas da autarquia. O título é "carta estratégica Lisboa 2010-2024, as bases para o futuro da nossa cidade estão lançadas". Como adquiri dois jornais, tive direito a dois "encartes" do dr. Costa. Depois de Kim-Il-Sócrates, Kim-Il-Costa?

Adenda2: Por falar em eleições, a JS - o ersatz da seita para os mais novos que já nasceram com a mesma ambição parola dos mais velhos, exactamente como na JSD ou na JP do dr. Portas - "exigiu" 35 lugares à nomenclatura, oito dos quais elegíveis, para as eleições de Setembro. Os meninos fracturantes, uma espécie de Alegre por antecipação, tratam-se bem. É bem feito. Dão-lhes importância. Aturem-nos.

Adenda3: No PSD também há gente a pensar em "exigir" lugares a Ferreira Leite em nome de outras fidelidades. E há quem tivesse prometido, aqui ou ali, um lugar por conta da "quota" da facção. Ainda não perceberam que, pelo menos com Ferreira Leite, não se brinca às facções.

Adenda4: Este jovem (republicano) pensa sensivelmente o mesmo do que eu na matéria e sobre o personagem. Oxalá nunca lhe passe pela cabeça uma "carreirinha" das muito procuradas por jovens e menos jovens. As coisas são o que são.

Adenda5: O inefável Frei Bento Domingues (eu sei que os meus amigos católicos se vão zangar mas isto faz parte do meu lado "irritante") escreve no Público sobre a nova encíclica papal sem, verdadeiramente, falar dela. Segundo o nosso Frei, «a chamada Doutrina Social da Igreja (DSI) é, de facto, a Doutrina Social dos Papas. Não se identifica com os percursos dos "cristãos pensadores do social" - como lhes chamou e os descreveu Yves Calvez -, embora tenham sido eles que, de modo independente, animaram e alargaram os grandes debates desta área no catolicismo.» "Cristãos pensadores do social" é um termo suficientemente ambíguo para nele caber a melhor das intenções e coisas como, por exemplo, a "teologia da libertação" ou o esquerdismo "louceiro". Louçã, convém não esquecer, também andou pela famosa Capela do Rato. Quanto ao mais, Frei Bento devia saber melhor do que eu que a DSI não é cindível da pessoa do Papa. Tal como a Igreja não é. Onde está a Igreja está o Papa e vice-versa. Onde ele não está é que, de certeza, não está a Igreja. As coisas são o que são.

VIOLÊNCIA, COMO ELES DIZEM


Aparentemente a chamada "violência doméstica" atinge mais casais same sexers do que casais ditos "normais". É normal porque a violência é a verdadeira "fonte" do amor, do ódio e da paixão, tudo equivalentes. Homens ou mulheres a dois são realidades semelhantes que, mais do que se encontrarem, se enfrentam. No caso dos homens, há demasiada virilidade pelo meio. Sim, não há apenas (ou exclusivamente) "paneleirice" de bandeira ou contabilidade sexual do género "activo" e "passivo". Já na relação heterossexual existe "mariquice" a mais porque é suposto que alguém "complemente" alguém. A mulher "ajuda" o homem nos seus momentos de fragilidade e vice-versa. Não conheço relação mais feminina do que a relação entre sexos diferentes. Às vezes é quase "familiar". Quantos homens não procuram na amada a mãezinha , a protectora contra demónios inadvertidos, e quantas mulheres não desejam um pai (ou um irmão, mais novo ou mais velho, consoante os gostos) no "companheiro". Não é preciso ler Jean Genet - ou Nicholas Sparks para analfabetos sentimentais - para perceber isto.

O QUARTETO DE OURO

Vale a pena ler o artigo do António Barreto. É uma boa, porque trágica, síntese destes quatro anos fracassados na educação. E aponta os responsáveis: Sócrates, Lurdes Rodrigues, Walter Lemos, os sindicatos. Todavia, convém juntar aos primeiros três Jorge Pedreira, mais um sociólogo de serviço à 5 de Outubro. Amigos, amigos, balanços à parte.

HOJE ACORDEI ASSIM*

Não sei que tempo faz, nem se é noite ou se é dia.
Não sinto onde é que estou, nem se estou. Não sei de nada.
Nem de ódio, nem amor. Tédio? Melancolia.
Existência parada. Existência acabada.

Nem se pode saber do que outrora existia.
A cegueira no olhar. Toda a noite calada
no ouvido. Presa a voz. Gesto vão. Boca fria.
A alma, um deserto branco: -o luar triste na geada...

Silêncio. Eternidade. Infinito. Segredo.
Onde, as almas irmãs? Onde, Deus? Que degredo!
Ninguém.... O ermo atrás do ermo: - é a paisagem daqui.

Tudo opaco... E sem luz... E sem treva... O ar absorto...
Tudo em paz... Tudo só... Tudo irreal... Tudo morto...
Por que foi que eu morri? Quando foi que eu morri?

Cecília Meireles

*Copyright

A ESFERA


Só ontem - depois de um mergulho rápido e estando parado no trânsito a contemplar o cartaz acima - percebi. O admirável líder não é o "sol da terra" mas representa a esfera armilar. As meninas à sua esquerda estão tingidas de verde e as à sua direita pintadas de vermelho. Ele "é" , afinal, a bandeira nacional. Kim-Il-Sócrates está de volta. Não faz a coisa por menos.

11.7.09

FORMA DE VIDA

... inteligente no PS. São tão escassas que convinha prestar-lhes mais atenção. O interesse nem sequer é meu. Bem pelo contrário.

NARCISICAMENTE NARCISO

«Um retrato típico de um Portugal pobre e pequeno.»

PARA APRECIADORES



Brünnhilde, no Crepúsculo, afirma que toda a gente a traiu. Afinal, o "saber" que Wotan - o pai, o deus fundador e final - lhe havia outorgado, não lhe serviu de nada num mundo de ganância, de estupidez, de egoísmo e de sofrimento. A sua entrega às chamas devoradoras dos deuses em queda é um símbolo permanente depois do assassinato de Siegfried. Tal como a devolução do ouro ao Reno e a tranquilidade em que termina a longa narrativa do Anel. Actualidade apenas para apreciadores.

A FALSA CANDIDATA


A D. Elisa Ferreira, vergastada pelos caciques locais do partido e pelas evidências, decidiu manter a sua candidatura à Câmara do Porto. Segundo ela, o Porto está primeiro embora já esteja de volta ao Parlamento Europeu. Não há dilema nem vergonha. A senhora fica no PE se perder e vai para o Porto se ganhar o que, pela natureza das coisas, não deverá acontecer. Louvou-se num telefonema que recebeu do secretário-geral do PS (foi assim que se referiu a Sócrates, seu velho subordinado no Ambiente) para ficar. Elisa e o admirável líder nunca se suportaram. Precisamente daqui a três meses ele ver-se-á definitivamente livre dela. E, quinze dias antes, com alguma sorte, nós dele. Não fazem falta nenhuma.

NESTE PAÍS EM DIMINUTIVO

Aqui. É por estas e por outras que os nossos jornais, as rádios e as nossas televisões, com uma ou outra honrosa excepção, se assemelham mais a ficção genuína do que um pseudo-romance de Sousa Tavares ou de Madame Rebelo Pinto.

O NOVÍSSIMO VITALINO

O que mais aprecio em Eduardo Pitta é a sua capacidade - e pachorra - para encarnar num misto, alfabetizado e literato, de Vitalino Canas e do novo Vitalino, o beto Silveira.

Contraponto: Aqui.

O CREPÚSCULO DOS DEUSES


O final da gigantesca narrativa o Anel do Nibelungo, O Crepúsculo dos Deuses, de Richard Wagner. Récita de 9 de Julho, integrada no Festival d'Aix en Provence, em diferido a partir das 19h no Canal Mezzo. Berliner Philharmoniker. Direcção musical de Sir Simon Rattle. (Siegfried) Ben Heppner, (Gunther) Gerd Grochowski, (Hagen) Mikhail Petrenko, (Alberich) Dale Duesing, (Brünnhilde) Katarina Dalayman, (Gutrune) Emma Vetter, (Waltraute) Anne Sofie von Otter, (Norn 1) Maria Radner, (Norn 2) Lilli Paasikivi, (Norn 3) Miranda Keys, (Woglinde) Anna Siminska, (Wellgunde) Eva Vogel, (Flosshilde) Maria Radner. Encenação de Stéphane Braunschweig.

A CULTURA SEGUNDO SÓCRATES

O admirável líder assumiu outro dia, num corredor da Assembleia, que tinha falhado na cultura. Alguém lhe soprou que devia dedicar duas palavras à coisa e ignorar - como tem ignorado - o incumbente Pinto Ribeiro. Não se comoveu tanto como com as "novas oportunidades" mas quase. Talvez por isso, reúne-se (para preparar o "programa eleitoral" do sector) com um "grupo de artistas" o que diz tudo sobre a noção de cultura que paira na vaguíssima cabeça de Sócrates. Rui Veloso, Represas, João Gil, Inês de Medeiros, Pinho Vargas, Mário Grilo ou Possidónio Cachapa são a cultura segundo Sócrates. Estamos entendidos.

ESPANHA, ESPANHA, ESPANHA... MAS AO CONTRÁRIO


«Ronaldo conquistou Madrid? Sim. Mas, ao mesmo tempo, Madrid conquistou Lisboa. Ouvimos em directo na RTP1, SIC, TVI e canais por cabo: “Hala Madrid!” Será preciso o TGV, que, no percurso previsto, transformará Lisboa em arredores de Madrid, como bem notava Luís Queirós (Jornal de Negócios, 06.07)? Madrid já suga gigantescos valores simbólicos portugueses, como Eusébio e Ronaldo, Madrid exibe-os como conquistas no Santiago Barnabeo, o Coliseu de Madrid, e Madrid chega a Lisboa, não em três horas, como o TGV, mas em directo, com a televisão.»

Eduardo Cintra Torres, Público


(Foto daqui)

COSTA, O HETERÓNIMO DELE MESMO


Vale a pena ler este exercício de pura hipocrisia política do dr. Costa, edil de Lisboa. Para dentro do seu próprio partido e para fora. Talvez estas frases resumam bem a coisa. «Tenho a maior estima pelo ministro Rui Pereira», «vejo com muita injustiça que seja permanentemente obnubilado o contributo do Prof. Carmona» ou «o José Sá Fernandes foi muito útil.» Pois. Com papas e bolos, dr. Costa...

"ACORDAR"?

Aquando das presidenciais de 2006, Manuel Alegre escreveu um artiguinho no Expresso (na realidade, um excerto de uma peça de ficção praticamente tão ficcionada como o seu autor) em que confessava ao mundo sentir-se como um soldado perdido no seu "quadrado". Soares, com a sua proverbial gentileza, gozou com o bardo. No fim, o bardo acabou por sair do "quadrado" e humilhou sumariamente o velho "pai da pátria". Foi bem feito. Alegre regressou entretanto ao Expresso para, desta vez, "acordar" o PS. Presume-se que contra Sócrates e a sua camarilha. Durante estes quatro anos, Alegre foi deputado do absolutismo "socrático" e, em seu nome, vice-presidente da A.R. Votou ao lado do PS, contra o PS e sem lado algum. Elogia, no entanto, as leis do aborto e do divórcio para distinguir Sócrates da execrável "direita". Ou seja, ao pretender "acordar", Alegre está de volta ao "quadrado". É que se o PS não "acordou" nestes anos, é agora, a dois meses de eleições, que vai "acordar"?